
A Confeitaria Rio-Lisboa, tradicional estabelecimento do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro, entrou no centro de uma disputa envolvendo o mercado imobiliário após o prefeito Eduardo Paes declarar o local Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do município. A decisão foi publicada no Diário Oficial e inclui o negócio no “Circuito dos Negócios Tradicionais” da cidade, garantindo proteção cultural ao espaço que funciona desde 1943.
O decreto tem validade inicial de dez anos e prevê a instalação de uma placa no local indicando o reconhecimento histórico. A medida, no entanto, poderá ser cancelada caso o estabelecimento deixe de preservar suas “características marcantes”. A iniciativa ocorre em meio ao interesse de construtoras no terreno, considerado altamente valorizado por estar em uma das áreas mais nobres do Rio.
Segundo o Globo, fontes do mercado imobiliário afirmam que as negociações envolvendo o endereço se arrastam há cerca de dois anos. O principal obstáculo nas tratativas seria o valor pedido pelos proprietários, estimado em R$ 30 milhões. Além disso, o imóvel está situado em uma Área de Proteção ao Ambiente Cultural (Apac), o que impõe restrições urbanísticas e limitações de altura para eventuais construções.
Funcionários relatam que a possibilidade de venda do imóvel se tornou um dos assuntos mais comentados entre os frequentadores nos últimos dias. “Que o imóvel estava à venda a gente já sabia. Mas, hoje, muitos clientes só falavam disso”, disse um funcionário da confeitaria.

Com a publicação do decreto municipal, o processo de negociação pode perder ritmo. Isso porque cresce a possibilidade de que a prefeitura avance para uma etapa mais rígida de preservação, como o tombamento do imóvel, o que ampliaria as restrições para alterações estruturais.
O interesse de investidores não se restringia à confeitaria. A loja vizinha também entrou no radar das construtoras. O espaço funciona no térreo de um prédio de três andares e abriga desde outubro de 2021 uma unidade da padaria Talho Capixaba.
Entre as empresas que teriam demonstrado interesse na área estão as construtoras Itten, TGB Imóveis e Mozak. A Mozak informou que não comentaria o caso, enquanto a TGB negou ter apresentado proposta formal. Já a Itten confirmou que houve conversas preliminares sobre o terreno.
Executivos do setor imobiliário avaliam que a escassez de terrenos disponíveis no Leblon eleva o valor potencial da região. Estimativas do mercado apontam que novos empreendimentos residenciais poderiam alcançar valores entre R$ 45 mil e R$ 55 mil por metro quadrado.
Localizada na esquina da Avenida Ataulfo de Paiva com a Rua General Artigas, a Rio-Lisboa começou com uma única porta quando foi inaugurada, há mais de 80 anos. Com o tempo, o estabelecimento expandiu suas instalações e passou a ocupar diferentes lojas do prédio.
Hoje, a confeitaria conta com balcão interno, mesas na calçada e áreas de trabalho distribuídas em três andares. O local já funcionou 24 horas por dia, mas desde a pandemia de Covid-19 passou a operar entre 6h e 22h. Atualmente, cerca de 60 funcionários trabalham no estabelecimento.