
O grupo Prerrogativas conclui com singeleza uma nota sobre a nova epidemia de vazamento de informações seletivas. A nota diz que os vazadores e os receptadores dos vazamentos dedicam-se à “nociva espetacularização das investigações”.
Também é isso, mas não é bem isso. O que os jornalões, com a Globo à frente de novo, estão buscando com a disseminação de vazamentos seletivos não é a audiência pelo espetáculo.
É a prestação de serviço sujo que interessa a quem vaza. É o julgamento antecipado e sumário, como correu na Lava-Jato e se repete agora com particularidades à la caso Master.
No auge do lavajatismo, a República de Curitiba tinha um time de jornalistas a serviço da legitimação da caçada a Lula. Mesmo que alguns tenham até publicado livros, é difícil dizer que este ou aquele era o cara do esquema em algum jornal ou na Globo, mesmo com suspeitas e indícios.
Desta vez, não. Malu Gaspar foi escolhida pelos vazadores, porque se habilitou a atacar Alexandre de Moraes e o Supremo. Malu é a guerreira a serviço dos ataques ao ministro, desde o momento em que a guerra entre ambos foi declarada.
A colunista da Globo virou protagonista com direito a chamada no Jornal Nacional. É a esponja de quase todos os vazamentos, e a frase mais ouvida entre os vazadores deve ser esta: passa para a Malu. Porque Malu precisa de muita munição para enfrentar e se possível derrubar Moraes.
Malu é a Globo. Pode acontecer, como tem acontecido, de a informação vazada fazer antes uma baldeação e chegar às mãos de Lauro Jardim, no mesmo Globo, ou de Monica Bergamo, na Folha.
Malu é tão poderosa que outros jornalistas não conseguiram acompanhar o pique da colega e a concentração de informações no Globo. Quase tudo o que sai da Polícia Federal e do Supremo vai para a colunista.
As baldeações são despistes, para sugerir que Malu não tem a exclusividade. É esse o esquema que desafia André Mendonça. Sem experiência como servidor do sistema de Justiça, no Ministério Público ou no Judiciário, a bronca é gigantesca.

Mendonça é desafiado a conter a máquina sem controle que abastece a TV Globo e o jornal O Globo e algumas vezes os outros jornais, ou será exposto como o ministro relator incapaz de segurar desmandos.
Teori Zavascki, como relator da Lava-Jato, sofreu essa acusação e não teve tempo para provar que seria capaz de enfrentar as facções de Curitiba na caçada sem escrúpulos a Lula.
O vazamento é o crack do jornalismo das corporações, desde o mensalão. São os profissionais da intriga, que se colocam no topo da pirâmide das estruturas das redações. No exercício do colunismo pesado, passam a comer pela mão dos vazadores.
A reportagem clássica perde relevância e o que importa é ficar de boca aberta esperando a comidinha que algum vazador irá passar, em rações diárias, selecionando o que pode incriminar Lula, o filho de Lula, o governo e as esquerdas.
Os servidores dedicados a investigações e os jornalistas têm crises de abstinência sem a ração diária dos vazamentos. E o resto? O resto é o que se vê, na precariedade de uma cobertura que se sustenta de novo na ação dos vazadores, no caso Master e no caso dos vampiros do INSS.
Em meio a esse cenário de acumpliciados pela direita, um exemplo de déficit de jornalismo. Os desencontros sobre o morre e não morre do sicário de Daniel Vorcaro, que finalmente morreu, foram mais uma das provas de que, por precariedade e desleixo, o jornalismo brasileiro das corporações já não consegue nos dizer nem quem está morto ou está vivo.
E também não conseguiu mostrar todos os interesses em torno das controvérsias sobre um sujeito que deveria morrer para alguns e ficar vivo para outros.
O próprio jornalismo da grande imprensa, entregue ao novo lavajatismo, não consegue nos provar que ainda respira. O que temos são esquemas, dentro das corporações, dependentes dos fornecedores de drogas de dentro das instituições. Os jornalões fumam, tragam e cheiram vazamentos.
Hoje, não há sinais de que possam se salvar, porque esse é um bom negócio das mídias analógicas que chegaram até aqui: adquirir, consumir e reelaborar drogas apresentadas depois como notícia.