
Ontem, tivemos mais um 8 de Março com pouca coisa pra ser comemorada. Os episódios chocantes de violência contra mulher, que se sucedem no noticiário, chamam a atenção para uma realidade constante. Vivemos em um país em que a importunação sexual, o estupro, a agressão doméstica, o risco de assassinato são sempre presentes, como ameaça ou como realidade, na vida das mulheres. O direito ao aborto, fundamental para que as mulheres ganhem inteira soberania sobre seus próprios corpos, continua sendo tabu para os políticos que se querem progressistas. Já a direita se orgulha de impedir até o acesso ao aborto legal. A desigualdade salarial ainda impera nas empresas. A dupla jornada de trabalho é a regra. As pautas que dizem respeito aos direitos, aos interesses e ao bem-estar da metade (na verdade, um pouco mais) da população são secundarizadas como setoriais, parciais, localizadas.
Nos últimos processos eleitorais no Brasil, o voto feminino foi fundamental para conter retrocessos. Como regra, as mulheres votam melhor do que os homens. Esta é uma constatação presente na literatura internacional.
Quando, nos últimos anos do século XIX e na primeira metade do século XX, as mulheres foram conquistando o direito de voto, era generalizada a percepção de que elas tendiam para opções políticas mais atrasadas, sendo sobretudo vulneráveis aos apelos de partidos religiosos. Um cientista político importante, Adam Przeworski, chegou mesmo afirmar que a conquista do voto feminino não se deveu à pressão das sufragistas, mas ao cálculo político de partidos conservadores, pressionados pelo crescimento das legendas que buscavam representar a classe trabalhadora. A tese de Przeworski é bastante disputada, mas não a evidência de que as primeiras eleitoras tendiam à direita.
Com o passar do tempo, isso mudou. Podemos ver aí os efeitos da mobilização feminista, o maior acesso das mulheres à educação, as transformações na organização familiar. Seja como for, como regra, é de se esperar que o voto das mulheres seja mais esclarecido, mais à esquerda, do que o voto dos homens.
No Brasil, sabemos que, caso a preferência dos homens tivesse predominado, Jair Bolsonaro teria sido reeleito em 2022. Só por isso temos uma dívida de gratidão impagável com todo o sexo feminino.
Mas este alinhamento eleitoral das mulheres não pode ser considerado automático ou garantido.
A direita tem apostado muito na formação e na promoção de lideranças femininas. De fato, o maior salto na presença de mulheres no Congresso Nacional ocorreu em 2018, graças à eleição de um importante contingente de deputadas bolsonaristas de primeira viagem (como Bia Kicis, Carla Zambelli, Joice Hasselmann, Chris Tonietto, Carol de Toni, Katia Sastre).
Embora nunca tenha concorrido a uma eleição, Michelle Bolsonaro tornou-se um ativo importante para direita e um vetor de penetração no eleitorado feminino. Ela faz a ponte com um contigentes de mulheres sensíveis ao discurso religioso, sobretudo evangélicas, mas que resiste ao discurso agressivo, belicista, das lideranças da extrema-direita, a começar por seu marido. Dotada de um tirocínio político invejável, mais esperta do que Jair, ela será uma figura importante nas eleições de outubro.

Seu entusiasmo pela candidatura do enteado Flávio é, para dizer o mínimo, discutível. Mas ela se prepara para eleger uma importante bancada extremista, alinhada a seu projeto.
A esquerda, porém, não tem tratado muito bem o eleitorado feminino.
Por um lado, dá baixa prioridade à agenda de promoção dos direitos das mulheres, por falta de visão ou por cálculo – por exemplo, para não melindrar grupos religiosos conservadores. Por outro, escorrega sem muita autocrítica em padrões machistas e não se envergonha de manter alianças táticas com gente sobre quem pesam acusações gravíssimas de violência de gênero. Arthur Lira é apenas um exemplo.
Por fim, prepondera em muitos setores da esquerda uma posição que tende a anular a categoria “mulher” como sujeito político coletivo e que estigmatiza a adoção de políticas baseadas no sexo biológico, que no entanto sempre foram e continuam sendo fundamentais para proteção das mulheres e para seu acesso à esfera pública.
Como escrevi outro dia, “a esquerda precisa do sexo”. A defesa, correta, do respeito a todas as pessoas e às suas escolhas, não justifica a transformação em dogma de uma posição carente de qualquer fundamento e estranha à experiência de todas as pessoas, de que o sexo biológico “não existe” ou é irrelevante.
Quando vemos uma ativista “marxista” como F. T. C. Manning defendendo que é preciso parar de falar em “mulheres” e, no lugar, colocar o conceito de “pessoas feminizadas”, podemos pensar que se trata apenas de uma excentricidade, de uma teorização descolada da realidade, feita para causar em um círculo restrito de cientistas sociais soi-disant transgressores. Mas quando é o Ministério das Mulheres do governo Lula que adere a práticas semelhantes, temos um problema mais grave. E, se faltarem outros motivos, o impacto eleitoral negativo já deveria ser suficiente para acender um sinal de alerta.