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As mulheres salvaram a democracia e a esquerda precisa cuidar melhor dela. Por Luís F. Miguel

Homenagem ao dia da mulher publicada pelo TRE do Tocantins. Foto: Divulgação

Ontem, tivemos mais um 8 de Março com pouca coisa pra ser comemorada. Os episódios chocantes de violência contra mulher, que se sucedem no noticiário, chamam a atenção para uma realidade constante. Vivemos em um país em que a importunação sexual, o estupro, a agressão doméstica, o risco de assassinato são sempre presentes, como ameaça ou como realidade, na vida das mulheres. O direito ao aborto, fundamental para que as mulheres ganhem inteira soberania sobre seus próprios corpos, continua sendo tabu para os políticos que se querem progressistas. Já a direita se orgulha de impedir até o acesso ao aborto legal. A desigualdade salarial ainda impera nas empresas. A dupla jornada de trabalho é a regra. As pautas que dizem respeito aos direitos, aos interesses e ao bem-estar da metade (na verdade, um pouco mais) da população são secundarizadas como setoriais, parciais, localizadas.

Nos últimos processos eleitorais no Brasil, o voto feminino foi fundamental para conter retrocessos. Como regra, as mulheres votam melhor do que os homens. Esta é uma constatação presente na literatura internacional.

Quando, nos últimos anos do século XIX e na primeira metade do século XX, as mulheres foram conquistando o direito de voto, era generalizada a percepção de que elas tendiam para opções políticas mais atrasadas, sendo sobretudo vulneráveis aos apelos de partidos religiosos. Um cientista político importante, Adam Przeworski, chegou mesmo afirmar que a conquista do voto feminino não se deveu à pressão das sufragistas, mas ao cálculo político de partidos conservadores, pressionados pelo crescimento das legendas que buscavam representar a classe trabalhadora. A tese de Przeworski é bastante disputada, mas não a evidência de que as primeiras eleitoras tendiam à direita.

Com o passar do tempo, isso mudou. Podemos ver aí os efeitos da mobilização feminista, o maior acesso das mulheres à educação, as transformações na organização familiar. Seja como for, como regra, é de se esperar que o voto das mulheres seja mais esclarecido, mais à esquerda, do que o voto dos homens.

No Brasil, sabemos que, caso a preferência dos homens tivesse predominado, Jair Bolsonaro teria sido reeleito em 2022. Só por isso temos uma dívida de gratidão impagável com todo o sexo feminino.

Mas este alinhamento eleitoral das mulheres não pode ser considerado automático ou garantido.

A direita tem apostado muito na formação e na promoção de lideranças femininas. De fato, o maior salto na presença de mulheres no Congresso Nacional ocorreu em 2018, graças à eleição de um importante contingente de deputadas bolsonaristas de primeira viagem (como Bia Kicis, Carla Zambelli, Joice Hasselmann, Chris Tonietto, Carol de Toni, Katia Sastre).

Embora nunca tenha concorrido a uma eleição, Michelle Bolsonaro tornou-se um ativo importante para direita e um vetor de penetração no eleitorado feminino. Ela faz a ponte com um contigentes de mulheres sensíveis ao discurso religioso, sobretudo evangélicas, mas que resiste ao discurso agressivo, belicista, das lideranças da extrema-direita, a começar por seu marido. Dotada de um tirocínio político invejável, mais esperta do que Jair, ela será uma figura importante nas eleições de outubro.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Foto: Vinícius Schmidt/Metrópoles

Seu entusiasmo pela candidatura do enteado Flávio é, para dizer o mínimo, discutível. Mas ela se prepara para eleger uma importante bancada extremista, alinhada a seu projeto.

A esquerda, porém, não tem tratado muito bem o eleitorado feminino.

Por um lado, dá baixa prioridade à agenda de promoção dos direitos das mulheres, por falta de visão ou por cálculo – por exemplo, para não melindrar grupos religiosos conservadores. Por outro, escorrega sem muita autocrítica em padrões machistas e não se envergonha de manter alianças táticas com gente sobre quem pesam acusações gravíssimas de violência de gênero. Arthur Lira é apenas um exemplo.

Por fim, prepondera em muitos setores da esquerda uma posição que tende a anular a categoria “mulher” como sujeito político coletivo e que estigmatiza a adoção de políticas baseadas no sexo biológico, que no entanto sempre foram e continuam sendo fundamentais para proteção das mulheres e para seu acesso à esfera pública.

Como escrevi outro dia, “a esquerda precisa do sexo”. A defesa, correta, do respeito a todas as pessoas e às suas escolhas, não justifica a transformação em dogma de uma posição carente de qualquer fundamento e estranha à experiência de todas as pessoas, de que o sexo biológico “não existe” ou é irrelevante.

Quando vemos uma ativista “marxista” como F. T. C. Manning defendendo que é preciso parar de falar em “mulheres” e, no lugar, colocar o conceito de “pessoas feminizadas”, podemos pensar que se trata apenas de uma excentricidade, de uma teorização descolada da realidade, feita para causar em um círculo restrito de cientistas sociais soi-disant transgressores. Mas quando é o Ministério das Mulheres do governo Lula que adere a práticas semelhantes, temos um problema mais grave. E, se faltarem outros motivos, o impacto eleitoral negativo já deveria ser suficiente para acender um sinal de alerta.