
A possível delação premiada de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, pode seguir um caminho incomum no Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com pessoas que acompanham o caso, o relator da investigação, ministro André Mendonça, poderá homologar um eventual acordo negociado diretamente com delegados da Polícia Federal mesmo que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, apresente parecer contrário.
Na prática, isso consolidaria uma dinâmica que já vem sendo adotada desde que Mendonça assumiu a relatoria do inquérito. Segundo Guilherme Amado, no PlatôBR, essas fontes afirmam que o papel da Procuradoria-Geral da República acabou sendo reduzido no andamento das investigações.
O modelo que se estabeleceu prevê uma interlocução direta entre o gabinete do ministro e os delegados responsáveis pela apuração do caso Banco Master. Essa dinâmica também tem contornado a atuação do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
As investigações conduzidas pela Polícia Federal apontam a existência de um esquema complexo de desvio de recursos envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas de seu círculo familiar. O ex-banqueiro, cujo banco foi liquidado pelo Banco Central, teria utilizado uma engenharia financeira sofisticada para transferir grandes quantias da instituição para contas controladas por familiares e empresas ligadas ao grupo.

De acordo com a apuração, o sistema de fraude envolvia CDBs (Certificados de Depósito Bancário), fundos de investimento e empréstimos concedidos a empresas controladas por laranjas. Um dos principais destinatários dos recursos seria Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, que possuía uma conta com mais de R$ 2,2 bilhões. Também aparecem nas investigações a irmã Natalia Vorcaro e o primo Felipe.
Empresas ligadas ao empresário João Carlos Mansur, proprietário da administradora de recursos Reag, também teriam sido utilizadas para movimentar parte do dinheiro desviado. Segundo os investigadores, as operações incluíam empréstimos fictícios que serviam apenas para transferir recursos do banco para empresas ligadas ao grupo familiar.
O esquema começava com a venda de CDBs com altas taxas de remuneração para atrair investidores. Esses recursos eram direcionados a fundos de crédito do Banco Master, que tinham como único cotista o próprio banco.
O dinheiro, no entanto, era usado para conceder empréstimos a empresas ligadas a Vorcaro. Em um dos casos citados na investigação, a Clínica Mais Médico recebeu cerca de R$ 361,1 milhões.
Outro mecanismo identificado envolvia fundos que aplicavam recursos em CDBs do próprio banco, criando um circuito financeiro em que o dinheiro retornava à instituição após passar por diversas operações intermediárias. Nesse processo, parte dos valores era desviada para empresas ligadas ao grupo.
A investigação também apontou um esquema para inflar artificialmente os ativos do Banco Master. Fundos de investimento compravam ativos sem liquidez, como ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), elevando seus preços para aumentar a capacidade de emissão de CDBs e captar mais recursos de investidores.
Os crimes investigados incluem gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, com penas que podem chegar a 12 anos de prisão, além de multas.