
Um fundo ligado à Reag Investimentos pagou R$ 38 milhões para o escritório do advogado Caio Carvalho Barros, filho do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e para outro aliado do governador ao adquirir direitos sobre honorários advocatícios. O contrato foi firmado pouco antes de o Banco de Brasília (BRB) iniciar negociações financeiras com o Banco Master. A informação foi revelada pelo colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo.
O acordo foi fechado em 29 de maio de 2024. Os escritórios de advocacia assinaram o documento em 3 de junho e o fundo ligado à Reag formalizou a adesão em 5 de junho. No mesmo mês, o BRB, banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal, iniciou negociações com o banco de Daniel Vorcaro. Ibaneis afirmou que está desligado do escritório desde o fim de 2018, quando foi eleito governador. O filho Caio tornou-se advogado em 2022 e passou a atuar como sócio da banca.
Os direitos adquiridos pelo fundo correspondem a honorários de um processo movido pelo Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindlegis/DF) contra a União. A ação discute o pagamento de benefícios vinculados ao exercício de funções comissionadas por servidores ativos e aposentados. A condenação total foi estimada em R$ 381,3 milhões, mas o crédito foi vendido por R$ 38,1 milhões, equivalente a cerca de 10% do valor.
O fundo que comprou os direitos é o “Reag Legal Claims Fundo de Investimento em Direitos Creditórios Não-Padronizados”. O diretor do fundo é Marcos Ferreira Costa, também responsável pelo Fundo Borneo, que posteriormente se tornou acionista do BRB. Em março de 2025, o mesmo fundo apoiou a eleição de dois advogados indicados por Ibaneis para o Conselho Fiscal do banco estatal. Após reportagens sobre o caso, os dois conselheiros renunciaram aos cargos.

No mês seguinte ao contrato, o BRB iniciou operações com o Banco Master. Daniel Vorcaro e a Reag tornaram-se acionistas do Banco de Brasília e o banco estatal passou a adquirir carteiras de crédito do Master. Em março de 2025, o BRB apresentou oferta para comprar parte do banco de Vorcaro, decisão que recebeu apoio público de Ibaneis. Investigações da Polícia Federal apontaram que créditos vendidos ao BRB eram considerados podres ou inexistentes, com prejuízo estimado em pelo menos R$ 8 bilhões.
Após a divulgação do contrato de R$ 38 milhões, partidos de oposição pediram apuração do caso. O deputado distrital Fábio Felix (PSOL) solicitou investigação sobre eventuais outros contratos entre o governador e a Reag e sobre a compatibilidade dos valores com o mercado.
PSOL e Rede anunciaram pedido de impeachment na Câmara Legislativa do Distrito Federal, enquanto o PSB apresentou ao ministro André Mendonça, do STF, pedido de afastamento do governador. O advogado Engels Augusto Muniz declarou que a venda foi regular e afirmou: “Em determinado momento, ele (Ibaneis) entendeu que deveria vender esses créditos. Procuramos vários fundos e um dos que aceitou pagar um valor razoável foi um fundo ligado à Reag”.