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Entenda o uso de agências de modelo para Epstein aliciar jovens brasileiras

O financista Jeffrey Epstein. Foto: reprodução

Uma investigação internacional aponta indícios de que agentes e agências de modelos foram utilizados para recrutar jovens mulheres da América do Sul, incluindo brasileiras, para uma rede ligada ao financista Jeffrey Epstein. Entre os nomes citados na apuração está o agente francês Jean‑Luc Brunel, que teria desempenhado papel relevante no sistema de aliciamento.

De acordo com reportagem da BBC News Brasil, agências associadas a Brunel teriam sido usadas para recrutar jovens, providenciar vistos e facilitar viagens para os Estados Unidos. A investigação apresenta o relato de uma brasileira identificada como Ana, nome fictício usado para preservar sua identidade.

Segundo ela, o recrutamento ocorreu no início dos anos 2000 em São Paulo, quando uma mulher prometeu oportunidades na carreira de modelo. Ao chegar ao destino, porém, a situação mudou. Ana afirmou que seus documentos foram confiscados e que foi informada de que teria uma dívida referente aos custos da viagem e das fotos.

“Logo percebi que não havia trabalho como modelo. Ela era uma cafetina”, afirmou.

Pouco depois de completar 18 anos, Ana relatou ter sido levada a um hotel de luxo em São Paulo para encontrar Epstein, que escolheria uma entre três mulheres presentes. Segundo o depoimento, o financista pediu que ela tirasse a roupa enquanto se masturbava. “Ele me escolheu”.

Documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos indicam que Epstein esteve no Brasil nesse período. Dias depois do encontro, segundo Ana, ele a convidou para uma festa onde ela conheceu Brunel. O agente teria ajudado a providenciar um visto estadunidense.

No passaporte apresentado à BBC aparece como patrocinadora a agência Karin Models of America, criada por Brunel. Ana afirmou que nunca trabalhou como modelo para a empresa e que o visto foi usado apenas para facilitar suas viagens aos Estados Unidos.

Registros judiciais indicam que Brunel utilizava duas agências, Karin Models of America e MC2, para atrair jovens de vários países, inclusive menores de idade. Ana disse que passou cerca de quatro meses viajando com Epstein entre os Estados Unidos e a França.

Segundo o relato, o financista pagava aulas de inglês e pequenas despesas. O visto estadunidense da jovem acabou cancelado em Miami após autoridades questionarem quem financiava suas viagens. Ela afirmou ter visitado o país pelo menos seis vezes e relatou ter ido também à ilha privada de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas.

Durante parte desse período, Ana acreditou manter um relacionamento com o financista. “Só depois percebi que ele fazia isso com muitas garotas”.

Outra brasileira mencionada na reportagem é Gláucia Fekete. Ela relembrou um episódio ocorrido quando tinha 16 anos. Em 2004, Brunel visitou a casa de sua família para convencer sua mãe a permitir que ela participasse de um concurso de modelos no Equador.

Crachá da modelo Glaucia Fekete do evento organizado por “recrutador” de Epstein, no Equador. Foto: Arquivo Pessoal

A mãe acabou autorizando a viagem para Guayaquil, onde ocorreria o concurso Models New Generation. Gláucia afirmou que o evento ocorreu sem grandes problemas, mas que durante a viagem não conseguiu entrar em contato com a família.

Depois do concurso, Brunel ofereceu pagar uma passagem para Nova York. A mãe recusou imediatamente. “Não. Nem pensar”.

Segundo ela, Brunel buscava garotas muito jovens. “Eles só procuravam crianças, menores de idade”, afirmou a mãe. “Infelizmente encontraram minha filha”.

Após o episódio, a família decidiu interromper a carreira de modelo da jovem. Hoje, Gláucia acredita que escapou de uma situação perigosa. “Foi realmente por pouco”.

Documentos do governo dos Estados Unidos indicam que Epstein esteve em Guayaquil nos dias 24 e 25 de agosto de 2004, datas que coincidem com a final do concurso. Registros também mostram que uma modelo menor de 16 anos que participou do evento voou duas vezes no avião de Epstein naquele mesmo ano.

Ao relembrar o caso, Gláucia afirmou que só mais tarde percebeu o risco que corria. “Sem saber, eu estava no meio daquela tempestade”, disse. “Minha mãe me salvou”.

O caso passou a ser investigado também no Brasil. Em fevereiro, o Ministério Público Federal abriu uma apuração para verificar se existiu uma rede de recrutamento de mulheres no país ligada a Epstein. A investigação é conduzida pela procuradora Cinthia Gabriela Borges, da unidade nacional de combate ao tráfico de pessoas, que pretende ouvir mulheres que tiveram contato com o financista para entender como o sistema funcionava.