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Decisão de Trump sobre PCC e CV visa interferir nas eleições, diz professor da UnB

Alcides Costa Vaz, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL/UnB) e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED) | Foto: Divulgação

A ameaça do governo de Donald Trump de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pode interferir diretamente no ambiente político brasileiro, segundo avaliação de Alcides Costa Vaz, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (IREL/UnB) e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (ABED). Em entrevista ao “Correio da Manhã”, ele afirmou que a iniciativa se insere em uma articulação que pode favorecer adversários do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa eleitoral de outubro.

Para o professor, a pauta da segurança pública deve ganhar peso central no processo eleitoral e pode ser usada como instrumento de pressão política sobre o governo brasileiro. “Esse será um tema forte nas eleições, e é claro que a inclinação do governo norte-americano é favorecer as forças políticas de direita no Brasil, ou de extrema direita. Então, é uma forma de colocar pressão política”, declarou. Na avaliação dele, um dos objetivos da movimentação dos Estados Unidos é influenciar o debate público no período da campanha.

Ao comentar a iniciativa “Shield of the Americas”, lançada em março de 2026, na Flórida, sem a participação de Brasil, México e Colômbia, Alcides Costa Vaz afirmou que não vê risco imediato de ofensiva militar dos Estados Unidos contra o território brasileiro. Ainda assim, ele disse que a classificação das facções como terroristas “traz um risco sim à soberania”, mesmo sem apontar um cenário de curto prazo para intervenção armada. Segundo o professor, a pressão atual se conecta a uma estratégia mais antiga dos Estados Unidos de militarizar o enfrentamento ao tráfico de drogas, ao terrorismo e ao crime organizado.

O especialista também relacionou esse contexto à visita anunciada de Darren Beattie, conselheiro sênior para Políticas sobre o Brasil no Departamento de Estado dos EUA, ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão. Para ele, o gesto integra um movimento mais amplo de pressão política. “Sim. E de articulações políticas visando, de alguma forma, a cantonar o governo brasileiro, colocar o governo brasileiro numa posição defensiva nesse tema. E é uma coisa incomum que uma instalação presidiária sirva de palco de articulações políticas internacionais”, afirmou.

Darren Beattie, assessor de Donald Trump. Foto: reprodução

Na entrevista, Alcides Costa Vaz avaliou ainda a atuação da diplomacia brasileira diante das pressões recentes do governo Trump, do tarifaço ao debate sobre facções criminosas. Segundo ele, o Itamaraty tem atuado de forma adequada até aqui. “Na minha avaliação ela atua relativamente bem. Nós conseguimos, de alguma forma, mitigar os efeitos do tarifaço, levar o governo norte-americano também a retroceder do próprio tarifaço, e temos essa perspectiva de uma visita de Estado do presidente Lula”, disse. Ele ponderou, porém, que, neste tema específico, a disposição dos Estados Unidos para recuar pode ser menor.

Ao tratar das vulnerabilidades brasileiras, o professor citou o uso de serviços da Starlink pelo Exército Brasileiro em operações e exercícios em áreas remotas. Para ele, a dependência da estrutura da empresa de Elon Musk representa fragilidade estratégica. “É uma imensa vulnerabilidade do Brasil. Uma vulnerabilidade que pode ser explorada sob a forma de ameaças”, afirmou. Segundo o professor, o cenário atual reforça a necessidade de ampliar investimentos em defesa, modernizar equipamentos e reduzir a dependência externa em áreas consideradas críticas para a soberania nacional.