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O que os ataques de mulheres a Erika Hilton dizem sobre nós. Por Nathalí

A deputada federal Erika Hilton – Reprodução

Os recentes ataques à deputada Erika Hilton (PSOL), presidenta da Comissão de Direitos Humanos, por homens e mulheres, à esquerda e à direita, escancaram uma péssima notícia: a transfobia no Brasil é pior e mais devastadora do que podemos imaginar — talvez pior que o próprio machismo que a pariu.

Primeiro: mulher trans é mulher, de fato e de direito, e isso não está em discussão. Como disse a própria deputada, esse tempo já passou.

As mulheres que agora a atacam aparentemente não conseguem se enxergar além de sua função reprodutiva (um projeto patriarcal que começou no período colonial): sim, eu tenho útero. Sim, eu menstruo. Mas ser mulher vai além disso; significa vivência, posicionamento. Ser mulher é, como temos dito, político — e acreditar que se trata apenas de biologia é se colocar justamente no lugar utilitário do qual queremos nos livrar.

Segundo: é esperado que mulheres de direita, educadas para o preconceito e a submissão, ataquem outras mulheres, cis e trans — e isso não é raro. Observar, entretanto, mulheres de esquerda, muitas que se dizem feministas, atacando uma mulher trans é preocupante e vergonhoso.

Mostra, sobretudo, que a transfobia vai além de esquerda e direita, homem e mulher: é um projeto de desumanização contra o qual Erika Hilton luta. Temos, inclusive, um feminismo radical extremamente transfóbico desde sempre — e, sim, isso é uma crítica, caso não tenha ficado claro.

Ato no Congresso Nacional, em Brasília, em memória de vítimas da transfobia no Brasil, em 2020. Foto: Mídia Ninja

Enquanto é atacada de todos os lados, Erika critica o estardalhaço acerca de seu gênero e nos lembra que a função da Comissão não é discutir transexualidade; é lutar pelas principais pautas relevantes às mulheres brasileiras, como o combate à epidemia de feminicídios e à cultura do estupro.

Há muito tempo não se vê na política brasileira uma mulher tão eloquente e comprometida. Mesmo em meio a ataques perversos, ela não abandona os seus. Não abandona a missão que assumiu e com a qual se compromete com louvor.

É isso que irrita esses canalhas, que nunca trabalharam, nunca se comprometeram e jamais apresentariam a qualidade política de Erika Hilton. Ver uma mulher transexual ocupando esse lugar incomoda.

Atacar Erika Hilton por ser quem é não enfraquece sua atuação — apenas revela o tamanho da resistência que ainda precisa ser enfrentada. Quando uma mulher trans ocupa espaços de poder, fala com clareza e se compromete com pautas que salvam vidas, o incômodo de tantos setores diz mais sobre eles do que sobre ela. No fundo, o que está em jogo não é apenas a identidade de uma parlamentar, mas a disputa pelo próprio significado de humanidade, dignidade e democracia no Brasil.