
Morreu neste sábado (14) aos 96 anos, o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. A morte foi confirmada pela editora alemã Suhrkamp, que citou informações da família do intelectual. Considerado um dos pensadores mais influentes do século XX, Habermas teve papel central na filosofia política contemporânea e se tornou um dos nomes mais importantes da chamada Escola de Frankfurt.
Ao longo de décadas, o filósofo foi referência em debates sobre democracia, ética, linguagem e sociedade. Sua opinião era frequentemente solicitada em discussões públicas na Alemanha e em outros países, e sua obra ajudou a definir o pensamento social europeu no pós-guerra. Em 2001, ao receber o Prêmio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, em Frankfurt, a então prefeita Petra Roth destacou sua “incansabilidade de reflexão” e a “incorruptibilidade de seu julgamento”, afirmando que ele contribuiu para a reputação cultural da Alemanha no cenário internacional.
O tema central de sua obra foi a democracia. Segundo o sociólogo Stefan Müller-Doohm, biógrafo do filósofo, a ideia democrática atravessa toda a produção intelectual de Habermas. Para ele, um sistema capitalista só poderia funcionar de forma legítima se fosse controlado por mecanismos democráticos. Essa preocupação foi influenciada por sua experiência pessoal: nascido em 1929, em Düsseldorf, ele viveu a juventude sob o regime nazista, que se tornou ponto de partida para suas reflexões sobre política, moral e responsabilidade histórica.
Na década de 1980, Habermas ganhou projeção internacional ao protagonizar um debate histórico com o filósofo Ernst Nolte sobre a interpretação do nazismo. Nolte defendia que crimes do regime hitlerista poderiam ser comparados aos do stalinismo, enquanto Habermas rejeitava essa equivalência, afirmando que tal comparação relativizava o caráter singular do Holocausto. A discussão marcou o pensamento alemão do pós-guerra e reforçou a posição de Habermas como um dos principais intelectuais públicos da Europa.
Seu vínculo com a Escola de Frankfurt começou nos anos 1950, quando seus textos chamaram a atenção de Theodor W. Adorno, um dos fundadores do Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, ao lado de Max Horkheimer. Habermas passou a integrar o grupo e se tornou um dos principais representantes da teoria crítica, corrente que analisava a sociedade moderna a partir da relação entre economia, cultura e poder. Em 1964, retornou à universidade como professor de Filosofia e Sociologia, sucedendo Horkheimer.
Durante os anos 1960, seu pensamento teve forte impacto sobre o movimento estudantil alemão, embora ele tenha se distanciado de grupos radicais. Habermas defendia a participação política e a desobediência civil, mas criticava ações violentas e o que chamou de “fascismo de esquerda”, posição que gerou conflitos com parte da juventude que o via como referência intelectual. Essa postura reforçou sua imagem de pensador engajado, mas independente de correntes ideológicas.
Entre suas obras mais conhecidas está “Teoria do agir comunicativo”, publicada no início da década de 1980, na qual desenvolveu a ideia de que a vida social depende da comunicação livre de coerção. Para Habermas, a legitimidade democrática surge do debate racional entre cidadãos, e não da imposição de poder. Conceitos como “situação ideal de fala” e “discurso livre de dominação” se tornaram fundamentais na filosofia política contemporânea.
Mesmo após se aposentar da Universidade de Frankfurt, em 1994, continuou participando de debates públicos. Em 1999, defendeu a intervenção da Otan na guerra do Kosovo, argumentando que democracias poderiam recorrer a ações internacionais quando não houvesse alternativa. Também se posicionou a favor da integração europeia, criticando o que considerava déficits democráticos na União Europeia e defendendo formas de cooperação supranacional.
Nos últimos anos, Habermas manteve atividade intelectual intensa. Em 2024, publicou o livro “Es musste etwas besser werden…”, no qual avaliou de forma crítica a política internacional contemporânea e afirmou que as elites ocidentais passaram a agir cada vez mais sob lógica de guerra. Ao comentar conflitos recentes, escreveu que faltou iniciativa política para impedir a prolongação de guerras que, segundo ele, poderiam ter sido evitadas.
Ao longo da carreira, recebeu diversos prêmios e homenagens, foi membro de academias científicas em vários países e teve um asteroide batizado com seu nome em 1999. Sua obra gerou milhares de estudos, teses e livros, consolidando-o como um dos pensadores mais influentes da filosofia e da sociologia modernas. A morte de Habermas encerra uma trajetória que marcou profundamente o debate sobre democracia, linguagem e sociedade no mundo contemporâneo.