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Como a alta do petróleo ameaça Trump nas eleições de novembro

O presidente Donald Trump. Foto: Divulgação

A ofensiva militar dos Estados Unidos contra o Irã passou a gerar impacto político interno para o presidente Donald Trump, especialmente após a alta no preço do petróleo e o prolongamento do conflito. Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, o valor do barril subiu no mercado internacional, chegou a US$ 120 e permanece próximo de US$ 100, nível considerado elevado para a economia americana.

O aumento do petróleo preocupa a Casa Branca porque o custo da energia tem efeito direto sobre gasolina, diesel e transporte, o que influencia a inflação e o consumo. Com eleições legislativas marcadas para novembro, o governo passou a monitorar de perto a reação do eleitorado, já que o encarecimento dos combustíveis costuma afetar a popularidade de presidentes em exercício.

Pesquisa Ipsos/Reuters divulgada nesta semana mostrou que 67% dos americanos acreditam que a gasolina ficará mais cara por causa da guerra. O levantamento também indica que seis em cada dez entrevistados avaliam que a ação militar dos Estados Unidos contra o Irã deve se prolongar, aumentando a incerteza sobre o cenário econômico.

Para a professora de relações internacionais Denilde Holzhacker, da ESPM, o impacto político tende a crescer. “Por isso, ele tem monitorado a situação de perto e tenta transmitir a mensagem de que a guerra vai acabar, que o Estreito de Ormuz será controlado e que haverá condições de equilibrar os preços e o abastecimento”, afirma.

O Estreito de Ormuz, principal rota global do petróleo, tornou-se um dos pontos centrais da crise. Cerca de 20% do consumo mundial passa pela região, que também responde por grande parte do comércio de gás natural liquefeito. Após ameaças e ataques a petroleiros, o tráfego caiu, aumentando a pressão sobre o mercado internacional.

O conflito ocorre em um momento sensível para o governo, já que os Estados Unidos terão eleições de meio de mandato em novembro, quando serão escolhidos todos os deputados e parte dos senadores. Atualmente, os republicanos controlam as duas Casas do Congresso, mas com vantagem pequena, o que amplia o risco político.

Segundo o cientista político Thiago de Aragão, o aumento do preço da energia afeta diretamente a percepção do eleitor. “Isso acaba transformando o preço da energia em uma espécie de termômetro imediato do eleitor, sobretudo em um ano eleitoral”, diz. Ele lembra que a gasolina já subiu mais de 20% desde o início da guerra, pressionando o custo de vida.

Transito nos Estados Unidos. Foto: Divulgação

Economistas em Washington calculam que uma alta de 10% no petróleo pode reduzir em cerca de 0,2 ponto percentual o crescimento do PIB, além de elevar a inflação. “Na prática, funciona como um imposto sobre as famílias, comprimindo a renda disponível”, afirma Aragão. “Isso gera um impacto muito grande nos eleitores de média e baixa renda, especialmente nos independentes — nem democratas nem republicanos, mas decisivos nos estados-pêndulo”.

Especialistas também avaliam que o governo americano esperava um conflito mais rápido. “O cálculo inicial era de uma guerra rápida, com uma intervenção que levaria à queda do aiatolá e à substituição por uma nova liderança mais alinhada aos EUA”, diz Denilde Holzhacker. A resistência iraniana e o uso do Estreito de Ormuz como instrumento de pressão obrigaram Washington a rever estratégias.

Para conter a alta do petróleo, os Estados Unidos adotaram medidas emergenciais, incluindo flexibilização temporária de sanções ao petróleo russo e acordo para importar mais barris da Venezuela. Países da Agência Internacional de Energia também decidiram liberar 400 milhões de barris de reservas estratégicas, na maior operação desse tipo já realizada.

Mesmo assim, analistas alertam que a eficácia dessas ações depende da duração das restrições à navegação no Golfo Pérsico. “Estoques estratégicos, por si só, serão insuficientes para evitar novas altas de preços se a navegação no Estreito permanecer intensamente restrita por um período prolongado”, afirma o economista David Fyfe.

Com o conflito ainda sem solução, cresce o risco de que a guerra influencie diretamente o resultado das eleições de novembro. Caso os republicanos percam a maioria no Congresso, Trump pode enfrentar dificuldades para aprovar projetos e até sofrer investigações.

“De fato, existe uma relação em que o eleitor pune o responsável por aumento de custos, inflação ou piora da economia”, diz a professora Carolina Moehlecke. “No entanto, ainda faltam oito meses para o pleito. Até lá, a situação no Oriente Médio pode mudar: pode se estabilizar ou até piorar”, concluiu.