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Erika, Ratinho, Bolsonaro e as esquerdas que absorvem as pautas e as dores da direita. Por Moisés Mendes

A deputada Erika Hilton (PSOL) e o apresentador Ratinho, do SBT. Fotomontagem: Mário Agra/Câmara dos Deputados/ Lourival Ribeiro/SBT

Tem mulher criticando Erika Hilton e também tem gente que, por histórico humanista, está sensibilizada com Bolsonaro. Gente do PT ou lulista ou das esquerdas acolhem e mimetizam posições e dilemas da direita.

Têm o direito de pensar o que consideram certo, como diria Cesar Tralli, o platitudo. Mas que há um certo estranhamento, isso há.

O caso de Erika Hilton é o mais complexo, porque envolve as muitas abordagens sobre o que é uma mulher, sob todos os pontos de vista, desde o da mulher ajudadora de Michelle até a mulher trans representada por Erika.

Se o mundo discute se a Terra é redonda ou plana, por que não poderia debater se Erika é mulher? Tudo é controvérsia, na tábula rasa à la brasileira de todos os debates.

São entendimentos que estão muito além ou muito aquém das muitas vertentes do feminismo. Repete-se nas redes sociais que, para algumas mulheres, mesmo as de esquerda, mulher é quem tem útero.

Mais ou menos como os homens que dizem que homem mesmo é quem faz filho. É jogo duro, que leva quase tudo para o tal lugar de fala.

É gente que não admite, por exemplo, que um homem se meta a tentar refletir sobre a situação da mulher. Homem tem que ficar quieto, no máximo olhando.

Eu sei, porque levo bordoada toda vez que tento me meter a facão sem cabo. O que tu pensa que é tentando te colocar no lugar de quem sentiu as dores do parto e o calor da cozinha?

Já há boas reflexões sobre as reações provocadas por Erika, pelo fato de que ela será, mesmo que a extrema direita não queira, a nova presidente da Comissão dos Direitos da Mulher na Câmara. Ratinho, Demétrio Magnoli e algumas mulheres acham isso muito estranho. Damares também deve achar.

A outra questão, aparentemente mais fácil, é a que mobiliza gente de esquerda em defesa de um tratamento humanitário para Bolsonaro. Querem tirá-lo da cadeia para que tenha assistência e conforto em casa.

Mais de 60% das mortes nas cadeias brasileiras são provocadas por doenças infecciosas, entre as quais a pneumonia e a tuberculose. Morrem amontoados em celas em que deveriam estar cinco e convivem dezenas de presos.

Não vamos estragar nosso fim de semana com as lembranças do que a família, e não só Bolsonaro, pensava dos que sofriam na pandemia. Nem lembrar que que toda a família é adapta da tortura.

E assim caminha o Brasil. A mulheres que não aceitam Erika em postos de defesa das mulheres (e não são apenas as radicais feministas ou as bolsonaristas) provocam o mesmo espanto das pessoas de esquerda pesarosas com o drama pessoal de Bolsonaro, o adorador de Brilhante Ustra.

Há várias abordagens femininas e feministas e também há muitas esquerdas conservadoras, moderadas e progressistas. É o mundo vasto das nuances.

O que poderíamos perguntar é se alguém da direita extremada sentiu piedade por Lula, preso por 580 dias, quando foi impedido de ir ao velório do irmão.

E se essa gente que adora torturadores teve entre as tantas facções do fascismo alguém que se comoveu com o assassinato de Marielle.

Resumindo de forma grosseira, para que a conversa não se estenda: parte dos que se dizem de esquerda aderem às pautas e sentem as dores da direita, mas a direita extremada dificilmente terá qualquer sentimento de compaixão ou solidariedade com alguém ou com os dilemas das esquerdas.