
O cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor de “O Agente Secreto”, foi entrevistado nas Páginas Amarelas da Veja, onde compartilhou detalhes sobre sua trajetória, o sucesso do cinema brasileiro e as questões que envolvem seu novo filme, além de refletir sobre o uso da inteligência artificial no cinema e o futuro do streaming. Confira trechos
A que atribui o ciclo virtuoso do cinema brasileiro nos últimos dois anos?
Há uma construção gradual de uma produção que tem se firmado como cada vez mais diversa. Quando comecei a pensar em fazer cinema, nos anos 1990, o cenário era árido e a produção concentrava-se no eixo Rio-São Paulo, com tentativas isoladas em algumas outras regiões. Foi na década de 2000, especialmente durante a gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura, que as políticas públicas ganharam força e se alastraram regionalmente. (…)
O que passou a funcionar e que antes se mostrava paralisado?
Editais com cotas permitiram que realizadores do Nordeste — só de Pernambuco posso citar uns vinte — fizessem seus primeiros longas. Tudo o que está acontecendo hoje não brotou do chão no ano passado. O sucesso de Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto vem de uma base pavimentada por obras como “Retratos Fantasmas”, “Bacurau”, “Aquarius”, “O Som ao Redor” e filmes de diversos realizadores de Pernambuco, Minas Gerais e outras partes do Brasil. Hoje, temos um cenário muito saudável. (…)
O Agente Secreto mostra a ditadura sob a ótica do homem comum. Muitos debatem se o filme seria uma resposta à visão sobre um militante ilustre em Ainda Estou Aqui. É isso?
Não, de forma alguma. Eu terminei de filmar O Agente Secreto em 22 de agosto de 2024 e fui assistir a Ainda Estou Aqui só em 3 de setembro, no Festival de Veneza. Nunca seria uma resposta, primeiramente por falta de tempo hábil e, segundo, porque eu nunca faria uma resposta a um filme tão bonito. O longa que fiz em parceria com Juliano Dornelles e que considero uma resposta direta a alguma coisa é “Bacurau”, que rebate a lógica do cinema de Hollywood, em que o “outro” é sempre o problema. (…)

Wagner Moura,protagonista de “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Foto: Divulgação
O Agente Secreto, portanto, não é resposta a nada?
É apenas mais um ponto de vista que eu queria somar a uma cinematografia que olha para a ditadura, dialogando de formas distintas com longas como “Pra Frente, Brasil”, “Ação Entre Amigos” e o próprio “Ainda Estou Aqui”. Queria contribuir com um cinema que olha para o passado do nosso país, algo que o Brasil geralmente evita fazer. (…)
O ator Wagner Moura brincou, com alguma ironia cortante, ao dizer que O Agente Secreto só foi realizado por causa do ex-presidente Jair Bolsonaro. Concorda com isso?
É uma frase muito boa e, de uma maneira orgânica, ele não deixa de ter razão. Todo filme meu vem de uma espécie de “antena atmosférica”. “Aquarius”, por exemplo, nasceu da minha impressão com as demolições ao meu redor. Para “Bacurau”, foram nove anos de trabalho que pegaram fogo quando o Brasil começou a sair da estrada democrática. Em O Agente Secreto, eu achava que estaria isolado escrevendo sobre o ano de 1977, mas percebi que o clima daqueles quatro anos de governo Bolsonaro era como se um grupo de homens velhos quisesse reeditar os “anos dourados” do regime militar. Eu não chegaria ao ponto de agradecer ao ex-presidente, mas, com certeza, o clima canalha instaurado naqueles anos me deu elementos cruciais para escrever o filme.