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Ciro fecha aliança com Flávio Bolsonaro. Por Miguel do Rosário

O deputado federal André Fernandes (PL-CE), seu pai Alcides e Ciro Gomes (PSDB-CE) em evento no CE.

O objetivo de Ciro Gomes não é ser governador do Ceará, mas realizar uma revanche.

Como suas chances de se eleger são zero, toda a movimentação do ex-ministro é puramente o esforço patético de um homem obcecado em se vingar de Lula num dos estados mais estratégicos do Nordeste.

Ao fechar aliança com Flávio Bolsonaro no Ceará, no entanto, Ciro Gomes consuma sua traição final.

Não traiu apenas seus eleitores ou o campo democrático nacional. Traiu o Sul Global inteiro.

Traiu cada palestino massacrado com o respaldo político que o bolsonarismo oferece a Israel e aos Estados Unidos de Donald Trump. Traiu o povo cubano, estrangulado por um bloqueio ilegal que o governo Bolsonaro ajuda a sustentar.

O bolsonarismo é a recusa criminosa de comprar vacinas durante a pandemia. É o negacionismo científico, a asfixia das universidades, a perseguição a jornalistas.

É a intimidação ao Judiciário, a tentativa de golpe, a barbárie do 8 de Janeiro.

É o planejamento, documentado e comprovado, do assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. São as ligações com o grupo que assassinou Marielle Franco.

É a privatização da BR Distribuidora, da Transpetro, das refinarias da Petrobras. É o avião da comitiva presidencial que pousou na Espanha com 39 quilos de cocaína.

É com tudo isso que Ciro escolheu se aliar.

O jornalista Guilherme Gonsalves, de O Povo, informou que Ciro e Flávio conversaram recentemente sobre a aliança. A coluna Vertical, de Carlos Mazza, no mesmo jornal, revelou que Flávio deve vir ao Ceará em abril para “fechar questão” sobre o apoio do PL.

Já não é especulação de bastidor. É articulação à luz do dia.

As anotações de Flávio reveladas em fevereiro apontavam que “o plano é apoiar Ciro Gomes, com o PL integrando sua chapa”, com vagas ao Senado. Nomes como Alcides Fernandes e Priscila Costa orbitam a disputa.

Michelle Bolsonaro percebeu a contradição antes de todos. Em novembro, se colocou frontalmente contra a aliança, chamando-a de “precipitada”.

Ela viu o óbvio: Ciro não é bolsonarista, é oportunista. Assim como traiu a esquerda, vai trair a direita quando lhe convier.

Flávio respondeu que seria hora de “tapar o nariz” porque o objetivo maior seria reduzir a força de Lula na região.

E Ciro não está jogando para ganhar. Não tem plano de governo, não tem base parlamentar, não tem coerência ideológica.

Um eventual governo Ciro teria enorme dificuldade de oferecer estabilidade ao estado. A coerência programática da aliança é zero.

Foto: Fábio Lima/O POVO / Foto: Andressa Anholete/Agência Senado
Ciro Gomes (PSDB) e Flávio Bolsonaro (PL)

Com quem ele governaria? Com bolsonaristas na cultura, na saúde, na segurança? Porque os aliados do PL vão cobrar espaço no governo.

Ao mesmo tempo, enfrentaria uma oposição de esquerda fortíssima no Ceará, num estado com tradição progressista consolidada. O resultado seria um governo paralisado desde o primeiro dia.

O que Ciro quer é usar a candidatura como instrumento de vingança contra Lula e contra o PT no Nordeste.

Mas o seu recall no Ceará tem o tempo contado. A partir do momento em que o cearense entender de que lado Ciro está, aliado a Bolsonaro, à extrema direita e a quem nunca gostou do Nordeste, o apoio que ainda resta tende a desaparecer.

Em 2022, colheu 3% na disputa presidencial. No Ceará, ficou com 6,8%. Em Sobral, berço da família, fez 18%. Terceiro lugar. Primeira vez que não venceu no próprio estado.

Roberto Cláudio, seu candidato ao governo do Ceará em 2022, terminou em terceiro com 14%. Elmano de Freitas, do PT, venceu no primeiro turno com 54%.

Em 2024, José Sarto, prefeito de Fortaleza pelo PDT, ficou em terceiro com 11,75%. Primeiro prefeito da história da cidade a não conseguir a reeleição. Os eleitores já deram seu veredicto.

Ciro também perdeu qualquer credencial de respeito institucional. Em 2024, chamou a então senadora Janaína Farias de “cortesã” e “assessora para assuntos de cama” do ministro Camilo Santana, em entrevistas públicas repetidas.

A Justiça o condenou a pagar R$ 52 mil por danos morais. O Ministério Público o denunciou por violência política de gênero.

A Advocacia do Senado chegou a pedir sua prisão preventiva porque ele continuou as ofensas mesmo depois da condenação.

Na mesma toada, acusou o ministro Haddad de roubar dinheiro público por conta dos precatórios, sem apresentar prova alguma. E seguiu em frente como se nada tivesse acontecido.

André Fernandes, deputado federal e presidente do PL no Ceará, empossado com aval de Bolsonaro e Valdemar Costa Neto, é quem articula a estratégia do partido no Estado. Fernandes é um radical, totalmente alinhado com as alas mais extremas do bolsonarismo.

É impossível tratar essa aliança como uma questão estritamente local. O bolsonarismo não se reduz a uma sigla regional, mas sustenta uma filosofia de mundo que engloba uma visão geopolítica profundamente imperialista e reacionária, uma cultura econômica ultraliberal e privatista e uma agenda moral antimoderna que nem o Ceará nem o Brasil merecem. Fechar com o PL do Ceará significa fechar com tudo isso.

Guálter George, diretor de Opinião do O Povo, foi ao ponto central no Jogo Político desta semana: a fantasia de acomodar lulistas, bolsonaristas e outros grupos sob o comando de Ciro sem que isso exploda na campanha tende a dar errado.

Ao buscar abrigo num acordo com Flávio Bolsonaro, Ciro confessa o esgotamento de qualquer projeto que pudesse reivindicar centralidade democrática. Resta apenas o antipetismo como ideologia terminal: a disposição de andar ao lado de qualquer força, inclusive a extrema direita, desde que sirva ao desejo de vingança.

Talvez falte apenas a fotografia oficial e a visita de abril para selar o enredo.

Politicamente, porém, a cena já está montada: Ciro fecha aliança com Flávio Bolsonaro e tenta vender como esperteza aquilo que, visto de perto, é apenas mais uma queda calculada rumo ao fundo do poço.

Publicado originalmente em O Cafezinho