
O Oscar 2026 foi marcado pela omissão da indústria do entretenimento diante de um dos períodos mais sombrios da política mundial. As exceções foram o ator espanhol Javier Bardem, que fez um protesto rápido falando “Não à guerra e Palestina Livre” durante a apresentação do prêmio de Melhor Filme Internacional, e Jimmy Kimmel com piadas insossas sobre o presidente americano Donald Trump.
Bardem, ao apresentar o prêmio ao lado de Priyanka Chopra Jonas, usou seu momento para expressar publicamente sua oposição à guerra em Gaza e ao regime israelense, vestindo um broche com a inscrição “No a la Guerra” (“Não à guerra”) e outro em apoio à Palestina. A sua fala foi recebida com aplausos da audiência.
Mais cedo, durante a cerimônia de entrega do prêmio de Melhor Documentário, Jimmy Kimmel também fez comentários ácidos sobre Trump, mencionando como “alguns países não apoiam a liberdade de expressão”. Kimmel, no estilo que já é esperado, se referiu à censura da rede CBS e fez piadas sobre o presidente e sua esposa Melania. Ninguém viu muita graça. Nem ele.
O Oscar 2026 foi um reflexo do momento de conformismo vivido pelo mundo do entretenimento nos EUA. A indústria do cinema, como um todo, evitou tomar uma posição firme contra o governo Trump, especialmente em um ano em que seu impacto foi sentido diretamente dentro dos Estados Unidos e ao redor do mundo, com a guerra contra o Irã a reboque de Israel.
Artistas e estúdios evitam se arriscar politicamente, talvez temendo represálias. Pode ser que a poltronice tenha a ver com uma sensação predominante de que celebridades que expressam opiniões políticas são fúteis. O comediante Ricky Gervais abriu a cerimônia do Globo de Ouro em 2020 dizendo aos atores americanos: “Se você ganhar um prêmio esta noite, não use isso como uma plataforma para fazer um discurso político. Você não está em posição de dar lição de moral ao público sobre nada. Você não sabe nada sobre o mundo real.”
No mês passado, ele decidiu repostar essa mensagem no X, acrescentando: “Eles ainda não estão ouvindo.” Talvez fizesse sentido há seis anos. Agora, Gervais se mostra cúmplice de um genocida e, no mínimo, um idiota útil.
Por que Hollywood, com todo o seu poder de visibilidade e influência mundial, se omite tão fortemente quando se trata de enfrentar o autoritarismo? Ao longo da história, desde os elogioos de Virgílio para o imperador Augusto até o controle do cinema pelos nazistas, sempre foi evidente que as grandes figuras da cultura são usadas por líderes autoritários como símbolos de apoio.
Hitler e Goebbels faziam de tudo para conquistar o apoio da indústria do cinema alemão, e a reação deles ao ser ignorados por artistas e celebridades do mundo foi vista como um grande insulto. O mesmo pode ser dito sobre o presidente Trump, que frequentemente expressa ressentimento contra celebridades que se opõem a ele.
Essa noite de Oscar, aparentemente uma grande celebração do talento e do cinema, revelou uma grande omissão: Atores e atrizes, com tanta influência, têm medo de se posicionar contra Trump e outros líderes globalmente perigosos. Em 1974, a imensa Vanessa Redgrave fez um discurso contra os sionistas que a ameaçavam de morte por ter feito um documentário sobre a Palestina.
Mais de 50 anos depois, nenhum de seus colegas se manifesta sobre crianças e mulheres sendo mortos com tiros na cabeça em Gaza. Com tantos filmes políticos, como “O Agente Secreto”, “Uma Batalha Após a Outra” e “A Voz de Hind Rajab”, o Oscar fracassou em usar seu imenso palco para mostrar repúdio a um fascista. Muito pelo contrário, a comunidade do cinema se ajoelha diante dele, como num filme vagabundo da boca do lixo do mundo.