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A justiça chegou tarde: o feminicídio anunciado da PM Gisele Alves

Geraldo Leite Rosa Neto e Gisele Alves Santana. Foto: Reprodução

O caso da PM Gisele Alves está finalmente sendo tratado como feminicídio.

Segundo laudo citado na decisão que prendeu o tenente-coronel Geraldo Rosa Neto por suspeita de feminicídio, violência doméstica e fraude processual, a policial militar Gisele Alves foi imobilizada por trás e baleada na têmpora, um crime premeditado para que parecesse suicídio. E era assim que o caso vinha sendo tratado antes do aprofundamento das investigações.

Sim, uma PM treinada talvez pudesse ter se defendido. Mas a mulher foi covardemente imobilizada por trás — e isso deve ser tratado como feminicídio qualificado pelo emprego de meios que impossibilitam a defesa da vítima, uma qualificadora que já existe no sistema penal brasileiro e que, sem sombra de dúvidas, deve ser aplicada ao caso.

Não se trata de um homicídio simples. E é preciso dizer isso quantas vezes forem necessárias para que esse crime seja não apenas punido, mas punido com todo o rigor da lei.

A própria filha da vítima, uma criança, relatou não aguentar mais as brigas e gritos do padrasto com a mãe, um forte indício de violência doméstica prévia.

Alguns — talvez tão canalhas quanto o assassino — usarão isso para culpar a mulher, dizendo que ela deveria ter denunciado antes que a violência resultasse em morte.

Pra quê?

A justiça garante, no máximo, uma medida protetiva frequentemente descumprida pelo agressor, que só fica com mais raiva e se torna ainda mais perigoso.

Momento em que o coronel Geraldo Leite é preso. Foto: Reprodução/TV Globo

Medida protetiva não cumprida não protege e ainda coloca a vítima em maior risco. Segundo o DataSenado 2025, cerca de 555 mil medidas foram concedidas no Brasil, e mais de 100 mil foram violadas.

Como confiar em uma justiça dessas?

Aliás, algo provavelmente deu errado no caminho: no Brasil, PM não é investigado com seriedade e eles sabem disso.

Protegem-se mutuamente e frequentemente garantem a impunidade uns dos outros, como um acordo tácito selado por uma farda.

Para esse feminicídio agora tratado como feminicídio — e, esperamos, punido com rigor — há centenas de outros feminicidas impunes.

Nunca é demais dizer que Gisele não é uma exceção: é um caso que, por algum motivo, rompeu a regra do descaso. Antes dela, muitas outras morreram em silêncio, arquivadas como estatística ou mentira conveniente.

E enquanto o Estado continuar chegando depois da morte, investigando melhor o cadáver do que protegendo a mulher viva, o feminicídio seguirá sendo não uma tragédia, mas um método.