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Excesso de médicos nas capitais trava mercado e deixa recém-formados sem emprego

Estudante de medicina. Foto: ilustração

O rápido crescimento no número de médicos no Brasil começa a gerar um efeito inesperado: a dificuldade de inserção no mercado, especialmente entre recém-formados nas grandes cidades. Dados do estudo Demografia Médica, da Faculdade de Medicina da USP, mostram que o país atingiu 635,7 mil profissionais em 2025, com a entrada de 35,9 mil novos médicos apenas no último ano — o maior número da série histórica.

O avanço é resultado direto da expansão dos cursos de medicina nas últimas décadas. Entre 2004 e 2024, o número de faculdades saltou de 143 para 448, de acordo com um levantamento feito pela Folha de S.Paulo. Apenas entre 2020 e 2024, foram 154,8 mil novos profissionais no mercado, um crescimento de 32%. Apesar disso, a distribuição desigual e a concentração em capitais têm dificultado a absorção dessa mão de obra.

Hoje, o Brasil tem 2,98 médicos por mil habitantes, índice superior ao de países como Estados Unidos e Coreia do Sul, mas ainda abaixo da média da OCDE, de 3,70.

O problema, segundo especialistas, não é apenas a quantidade, mas a concentração. Em São Paulo, por exemplo, a média estadual é de 3,76 médicos por mil habitantes, enquanto na capital chega a 6,8. Em Belo Horizonte, o número é ainda maior: 9,98, contra 3,49 em Minas Gerais.

Esse desequilíbrio impacta diretamente os recém-formados, que enfrentam dificuldade para conseguir plantões e empregos fixos nos grandes centros. Em muitos casos, vagas são preenchidas em poucos segundos, refletindo a alta concorrência. Ao mesmo tempo, regiões do interior seguem com menor presença de profissionais.

Fachada do Hospital Universitário da USP. Foto: reprodução

Outro fator determinante é a crescente exigência por especialização. Hospitais de grande porte têm priorizado médicos com formação complementar, o que torna a residência médica praticamente obrigatória. No entanto, a oferta de vagas não acompanha o aumento de graduados. Entre 2018 e 2024, o número de estudantes de medicina cresceu 71%, passando de 168 mil para 288 mil, enquanto o total de residentes aumentou apenas 26%, de 38 mil para 48 mil.

Para o professor da USP e coordenador do estudo, Mario Scheffer, o cenário atual ainda não configura desemprego generalizado, mas aponta para uma concentração de profissionais em determinadas regiões. “É possível que haja super concentração de médicos em alguns grandes centros. Mas por enquanto há mercado suficiente para absorver todos os médicos”, afirmou à Folha.

Além da concorrência, há também questionamentos sobre a qualidade da formação. Dados do Ministério da Educação mostram que 32% dos cursos avaliados em 2025 tiveram desempenho considerado insatisfatório.

“Exames de abrangência nacional têm apontado possíveis fragilidades na formação técnica inicial, o que naturalmente suscita debate sobre a qualidade da formação médica no país”, diz Renato José Vieira, diretor técnico do Hospital Santa Catarina Paulista.

A projeção é de que o número de médicos continue crescendo e alcance 1,15 milhão até 2035, ampliando ainda mais o desafio de equilibrar formação, qualidade e distribuição dos profissionais no país.