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Israel e a opção Sansão. Por Aldo Fornazieri

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Foto: AFP

Por Aldo Fornazieri

A história de Sansão na Bíblia é contada em Juízes 13-16. Sansão era um israelita nazireu (pessoas com voto de consagração a Deus e passam a não poder cortar o cabelo, não sorver bebidas fermentadas e não tocar em cadáveres), dotado de extraordinária força que combatia os filisteus, devastando seus campos, destruindo suas cidades e massacrando-os. Ocorre que ele se apaixonou por Dalila, uma filisteia, que foi corrompida para conseguir de Sansão o segredo de sua força descomunal. O segredo estava nos cabelos e quando ele dormia, Dalila chamou os chefes filisteus para que os cortassem.

Aprisionado, Sansão foi torturado, cegado. Levado até o templo para uma celebração, Sansão, movido pelo desejo de vingança, pediu a Deus a restituição de sua força e, apoiando as mãos nas colunas, fez ruir o templo de Dagom em Gaza, matando milhares de filisteus e morrendo com eles.

Na tipologia da liderança, Sansão é um líder movido pelos impulsos e pela vingança, desprovido de autocontrole. Uma das interpretações morais da história de Sansão indica que ter força extraordinária e contar com as bençãos divinas pode suscitar líderes sem caráter, descontrolados emocionalmente e sem observância dos limites e das leis.

Não há evidências arqueológicas ou históricas da existência de Sansão ou de qualquer história verossímil em relação aos fatos narrados. Também não há evidências históricas ou arqueológicas acerca da maior parte das narrativas do Antigo Testamento. A arqueologia e a história arqueológica crítica contemporâneas são categóricas em afirmar que essas narrativas são construções liderarias baseadas em mitos imemoriais e de histórias de outros povos absorvidas pelos escribas e incorporadas à Bíblia como se fizessem parte da história de Israel.

Mario Liverani, talvez a maior autoridade em história de Israel Antigo e do Antigo Oriente, é categórico em dizer que Israel antigo tem duas histórias: uma verdadeira, prosaica e pouco significativa; outra inventada, extraordinária e dotada de grande significação.

Um exemplo de história inventada é a da conquista militar de Canaã. Ela nunca existiu. Nela, Josué extermina povos com uma fúria e  violência inauditas sob o mando e a proteção de Deus. Povos e cidades inteiras desaparecem só a fúria louca e impiedosa de exércitos e de um Deus sedento de sangue. Quem estudou a história do império Neoassírio vê uma semelhança espantosa nas narrativas do Livro de Josué com a história real desse império que se constituiu em uma máquina militar de matança e destruição.

Os assírios eram impulsionados pelo deus Assur, que os tornava imbatíveis em sua sede de sangue e destruição. Jeová, deus de Israel, aparecia como um deus menor e subordinado a Assur. Muitos dos juramentos que aparecem na Bíblia, de fidelidade a Jeová, são praticamente cópias dos juramentos dos assírios a Assur. Muito do que Israel atual vem fazendo e fez em Gaza, é semelhante ao que os assírios faziam e que foi replicado no Livro de Josué.

O termo “Opção Sansão” apareceu primeiro entre analistas de inteligência atribuindo-o a uma estratégia militar de Israel no uso de armas nucleares. Ele ganhou notoriedade com a publicação do livro de Seymour Hersh, “Opção Sansão: O Arsenal Nuclear de Israel e a Política Externa dos Estados Unidos”, publicado em 1991. Recentemente surgiram novas publicações e textos abordando o tema.

Sansão e o Leão (1695) de Luca Giordano. Foto: Reprodução

A estratégia nuclear da “Opção Sansão” não é uma mera tese especulativa. Ela é sustentada por entrevistas confidenciais com analistas militares de Israel e Estados unidos e em documentos sigilosos. Resumidamente, a estratégia consiste no seguinte: se Israel correr um risco existencial ou a possibilidade de uma derrota militar significativa, não hesitará em usar armas nucleares para se salvar ou para sucumbir junto com seus inimigos.

Se é verdade que a “Opção Sansão” foi desenvolvida como última salvaguarda contra a aniquilação, o fato é que Netanyahu vem repetindo que o Irã representa um risco existencial para  Israel. Ninguém sabe como a guerra contra o Irã seguirá seu curso. Políticos extremistas do governo de Israel haviam ameaçado usar armas nucleares contra Gaza. Analistas temem que se algo fugir do controle contra o Irã, armas nucleares podem ser usadas.

Em Gaza, calcula-se que os explosivos lançados nos momentos iniciais da guerra foram várias vezes superiores ao poder explosivo da bomba atômica de Hiroshima. A Humanidade aceitou com significativo silêncio os crimes e o genocídio cometido em Gaza. Quase ninguém pede o fim da guerra contra o Irã.

Israel mostra que está disposto a destruir o Irã e parte do Líbano por guerra convencional. É um Estado que se move por uma lógica criminosa e assassina sem limites. Se algo fugir do cálculo, o Oriente Médio poderá ver o fogo fulgurante da destruição nuclear mais uma vez, semeando morte e cinzas.

O mais grave é que não existem forças de contenção. Os Estados Unidos embarcaram numa “fúria cega”, caudatário de Israel, como disse a capa da The Economist. Os governos europeus estão acovardados. As instituições internacionais estão falidas. Nenhuma outra potência se propõe liderar um movimento de reestruturação de uma governabilidade global. Os movimentos progressistas pelo mundo afora parecem estar estupefatos. A sociedade israelense, nos últimos tempos, passou por mudanças políticas importantes: boa parte dela apoia os grupos extremistas de direita e soluções militares.

Com este cenário, os líderes, movidos por ambições desmedidas, pela loucura de vontades assassinas agem sem limites e se impõem pela violência. O governo de Israel está dominado por políticos que alimentam uma apocalíptica teológica ligada ao sionismo radical, baseada na interpretação literal das escatologias dos textos antigos. A partir dessas crenças agem politicamente, invadindo, destruindo, matando, massacrando e “suprimindo o outro”. A atual liderança israelense acredita que o país vive “tempos finais”.

Para salvar o Israel ameaçado pregam a Teologia do Domínio e da Guerra Espiritual, adotada por legiões de evangélicos pelo mundo. Resgatam um Deus que quer a força, a fúria e a violência. Um Deus expansionista que quer restaurar o Grande Israel.

O mundo está tomado pela loucura de pessoas que resgatam fantasias literárias e mitos imemoriais para justificar seus crimes e suas ambições. Além das mortes e da destruição, o Irã e a região estão sofrendo gravíssimos danos ambientais que estão agravando as catástrofes e as tragédias da guerra. Esta loucura precisa parar. Cada um de nós também é responsável.