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Cortes, infarto e crise: demissão de chefe do jornalismo expõe crise dentro da Globo

Fabrício Marta ao lado de Valéria Almeida, abraçados, sorrindo e olhando para a câmera
Fabrício Marta ao lado de Valéria Almeida – Reprodução/Redes Sociais

Há menos de dois meses em um novo cargo, Fabrício Marta pediu demissão da Globo após quase 30 anos de atuação na emissora. A promoção havia sido anunciada no fim de janeiro, mas o jornalista decidiu deixar a empresa por discordar de decisões internas do jornalismo. Em publicações nas redes sociais, ele relatou cortes de horas extras, criticou mudanças na gestão e descreveu o ambiente nos bastidores como caótico.

O ex-chefe de produção dos jornalísticos de rede nacional também contou que sofreu um infarto pouco antes do Carnaval, dentro da redação do “Jornal Nacional”. “Foram dois infartos: um sem cura e outro tratável, ao sabor da resiliência”, escreveu. Segundo ele, o pedido de demissão foi enviado aos chefes por WhatsApp ainda no hospital, mas não teve relação direta com o problema de saúde, e sim com “conjunturas internas” que, segundo afirmou, já não combinavam com sua trajetória profissional.

Entre os episódios citados por Marta está a tarefa de comunicar a produtores o fim do pagamento de horas extras no encerramento de 2025. Ele classificou a medida como “perversa” e relatou o impacto da decisão sobre funcionários que dependiam desse valor para despesas pessoais e familiares. Em uma das postagens, afirmou que precisou avisar um produtor que perderia cinco horas extras por dia, mesmo com a remuneração combinada anteriormente de forma verbal.

Marta também mencionou o caso de Helton Setta, produtor da Globo há 25 anos, apontado por ele como exemplo de insatisfação interna. Segundo o ex-executivo, Setta acompanhou durante sete anos pesquisas sobre a polialilamina, proteína estudada pela UFRJ para recuperação de movimentos após lesões na medula, mas não teria recebido crédito pelo trabalho em uma reportagem exibida no “Fantástico”. Ele ainda afirmou que o colega está há uma década sem promoção.

Outro ponto levantado por Fabrício Marta foi a mudança no programa “Estagiar”, historicamente ligado à seleção de jovens talentos no jornalismo da Globo. De acordo com o jornalista, a emissora passou a concentrar a entrada de novos estagiários em uma parceria com a PUC-Rio. Em sua crítica, ele disse que a mudança reduz o acesso de estudantes de universidades públicas e de jovens de baixa renda que antes ingressavam na empresa pelo projeto.

As publicações receberam manifestações de apoio de profissionais que passaram pela Globo e de nomes ainda ligados à emissora, como Fátima Bernardes, Alexandre Henderson e Marcelly Setúbal. Ex-participantes do “Estagiar”, como Fernando David, e antigos chefes de produção, como Juarez Passos, também comentaram o tema. Nos relatos, eles citaram a importância histórica do programa e defenderam um processo de seleção mais amplo, sem priorização por universidade de origem.