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Sakamoto: Castro dá bilhão ao Master, produz chacinas, contrata fantasmas e renuncia

Cláudio Castro, ex-governador do Rio de Janeiro

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Prestes a ser cassado pelo TSE por causa do escândalo dos cargos secretos que sangraram os cofres públicos em mais de R$ 1 bilhão durante as eleições de 2022, Cláudio Castro (PL) largou mão do cargo. Vai dizer que renunciou ao governo do Rio de Janeiro para concorrer ao Senado. Como sempre há chinelo velho para pé cansado, o mimimi cola em parte do eleitorado — como cola a ideia de que a Terra é plana ou de que não houve tentativa de golpe de Estado. Mas dificilmente escapará da inelegibilidade.

Deixa como legado um rombo de quase R$ 1 bilhão no RioPrevidência após o fundo injetar dinheiro no Master quando o banco já era visto como uma piada no mercado financeiro. Era dinheiro de aposentadorias de professor com burnout, enfermeira que segura plantão triplo e gari que limpa rua alagada. Esse pessoal que continua pobre porque não têm, segundo muitos coaches, o mindset correto.

A Polícia Federal investiga a “suspeita de operações financeiras irregulares que expuseram o patrimônio de autarquia responsável pela gestão das aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro a risco elevado e incompatível com sua finalidade”.

Ressalte-se que, enquanto a grana evaporava dos investimentos de fundos de pensão, Daniel Vorcaro e empresas ligadas a ele compraram mansões, apartamentos e jatinhos no valor de R$ 2 bilhões. A apuração sobre a compra de patrimônio de superluxo foi publicada por Natália Portinari, Amanda Rossi e Pedro Canário aqui no UOL.

Isso certamente justifica a entrada de Castro em qualquer PowerPoint das relações políticas com o dono do Master.

Mas Castro não parou por aí, sendo pai de algumas das operações policiais mais letais da história da região metropolitana do Rio de Janeiro. Foram 121 mortos na Penha e no Alemão no ano passado; 28 no Jacarezinho (maio de 2021); 23 na Vila Cruzeiro (maio de 2022); 16 no Complexo do Alemão (julho de 2022); 13 em São Gonçalo e Salgueiro (março de 2023); e 12 em Itaguaí e Vila Ibirapitanga (outubro de 2020).

Ao perceber que sua política policial violenta agradava a uma parcela da sociedade e o projetava politicamente entre a extrema direita, resolveu abandonar qualquer pudor. Bebeu direto na fonte. Copiou descaradamente um lema da ditadura enquanto armava o palanque político sobre os 121 cadáveres de 2025.

Ao parabenizar os agentes de segurança pela tragédia, soltou a frase: “A gente não vai ficar respondendo nem a ministro nem a autoridade que queira transformar esse momento em uma batalha política. O recado é: ou soma no combate à criminalidade ou suma!”.

É apenas uma atualização do “ame-o ou deixe-o”, usado pelos militares contra quem criticava a incompetência, a tortura e os assassinatos com os quais conduziram o Brasil entre 1964 e 1985.

Soma ou suma. Castro somou-se à lista de governadores encrencados do Rio. E sumiu.

Ame-o ou deixe-o. Provou que ama tanto a si mesmo que resolveu deixar o governo.

Corpos de vítimas de massacre no Rio de Janeiro. Foto: Fabiano Rocha/Agência O Globo

Quando o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro absolveu, por quatro votos a três, o governador, seu então vice Thiago Pampolha (que renunciou ao cargo no ano passado para assumir uma vaga no TCE) e o então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar (preso, depois solto com uma tornozeleira e afastado da função), no escândalo dos cargos secretos, os desembargadores não negaram os fatos. Apenas disseram não ver prova de que o esquema os beneficiou eleitoralmente.

Agora, o TSE deve corrigir esse erro. Afinal, é piada de mau gosto afirmar que 24 mil pessoas contratadas com dinheiro público — via Fundação Ceperj e Universidade Estadual do Rio de Janeiro — para atuar como cabos eleitorais ilegais não ajudaram a eleger Castro.

A extensa investigação de Ruben Berta e Igor Mello, do UOL, em 2022, que levou ao julgamento, revelou a engrenagem: cargos secretos, funcionários-fantasma, alunos de mentira, saques vultosos em dinheiro, rachadinhas via Pix. Um sistema inteiro montado para financiar cabos eleitorais com recursos que deveriam ir para a educação.

O roteiro seguido por Castro é velho conhecido. Primeiro, usa-se o poder público como caixa eletrônico eleitoral. Depois, quando a conta chega, veste-se o figurino de perseguido político e corre-se para a próxima eleição. Como quem troca de palco, não de responsabilidade.

É a velha lógica de políticos fluminenses, que tratam o Estado como propriedade privada e a população como figurante descartável.

Se o TSE confirmar o óbvio, Castro entrará para mais um capítulo da longa coleção de governadores do Rio que deixaram o Palácio Guanabara pela porta lateral da história.

No Rio de Janeiro, isso já virou quase tradição institucional.

E, como toda tradição ruim, sempre aparece alguém disposto a repeti-la.

E muita gente disposta a votar nesse alguém.