
Nunca antes a Globo se dobrou à força de um erro grave, como aconteceu com o caso do powerpoint divulgado pela jornalista Andréia Sadi, da GloboNews. O pedido de desculpas para a farsa do gráfico com os envolvidos no Caso Master deve ser tema para aulas de comunicação sobre a decadência do jornalismo nas grandes corporações e na Globo em especial.
O caso merece estudos por sua grandeza trágica para a própria Globo. Pelo que é mostrado, desde a exposição do powerpoint, pelo que é sugerido e balbuciado e pelo que não é dito. E o tema não é, como parece, de interesse apenas de jornalistas.
É relevante para a compreensão do protagonismo político permanente das corporações de mídia, que orientam o que suas audiências devem saber e debater. E para que não se perca a percepção de que o lavajatismo está vivo, mesmo que com outras variações.
Um aspecto que passa ao largo do debate sobre o caso ajuda a esclarecer o momento político e o jornalismo nesse contexto. Ninguém fala da cena de apresentação do powerpoint, na sexta-feira, dia 20, no programa ‘Estúdio i’ da GloboNews.
O que se passa em torno da ‘arte’ é revelador do que aconteceu, para que o foco não seja apenas o powerpoint mas os personagens ao redor. Estavam no estúdio Andréia Sadi e os comentaristas Thomas Traumann e Arthur Dapieve. Valdo Cruz tinha participação remota e aparecia numa tela, como geralmente acontece.
Andréia anunciou que iria apresentar num telão “personagens que de uma forma ou de outra apareceram nessa teia do Caso Master e com ligações com o banqueiro Daniel Vorcaro”.

Lula, com o retrato no alto da teia, foi a primeira ‘aranha’ citada por causa, segundo a jornalista, da reunião de dezembro de 2024 com Vorcaro, que teve como testemunhas Gabriel Galípolo (antes de assumir o Banco Central) e os ministros Rui Costa, da Casa Civil, e Alexandre Silveira, de Minas e Energia.
Andréia vai olhando os retratos no quadro e citando, na sequência, Hugo Motta, Davi Alcolumbre, Alexandre de Moraes, a mulher de Moraes (que não aparecia), Ciro Nogueira, Antonio Rueda, Nikolas Ferreira, João Doria, Ricardo Lewandowski.
O cientista político Traumann pergunta: por que o Galípolo? Andréia pede que o colega espere um pouco, porque ela vai falar do PT da Bahia (há uma estrela do PT no quadro), ”só pra fechar” o raciocínio, e fala do senador baiano Jaques Wagner.
Depois de fechar, explica então que Galípolo está no powerpoint porque participou da reunião de Lula com Vorcaro. E ficou por isso mesmo. O título do painel que imita uma colagem é “Conexões de Daniel Vorcaro”. Galípolo tinha conexões. Lula já estaria conectado.
Valdo disse que aquilo era “só um aperitivo”, porque mais gente iria aparecer, como se tentasse explicar por que outros não apareciam. Perguntou: “Dias Toffoli apareceu na arte?” Estava vendo que não.
Dapieve observou que a arte “não significa envolvimento, mas conhecimento”. Não ajudou muito. E ressaltou que o mais envolvido mesmo seria mesmo Dias Toffoli.

Andréia falou de dois diretores do Banco Central, sem dar seus nomes (são Beline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza) e disse que ambos “jogaram o Banco Central no meio dessa crise”. Os diretores afastados dos cargos por Galípolo não apareciam no quadro.
O constrangimento se espraiou. Valdo disse que os diretores estão sob investigação. Mas ninguém lembrou que o chefe deles era Roberto Campos Netto e que os dois trabalhavam para Vorcaro dentro do BC, em salas ao lado do gabinete de Campos Neto.
Traumann observou que ACM Neto recebeu dinheiro de Vorcaro. Mas ninguém falou de Bolsonaro e de Tarcísio, que também receberam doações de campanha, ou do governador Ibaneis Rocha, que armou a tramoia da compra do Master pelo Banco de Brasília.
A conversa durou 14 minutos, mas era tão sem força, tão sem convicção, que Andréia a interrompeu de repente e pediu o intervalo, como se tentasse puxar ar e evitar a perda de controle da situação.
A jornalista não teve juízo mas teve sorte. Se Flávia Oliveira, Marcelo Lins e Octavio Guedes estivessem na roda, como comentaristas, o clima poderia ter ficado mais pesado. Porque faltou mais do que as intervenções meio frouxas dos outros três.
Outros colegas mais inquietos poderiam, por instinto profissional, ter feito perguntas incômodas. Mesmo assim, foram 14 minutos que duraram uma eternidade, com o powerpoint no colo de Andréia e os outros três certos de que nem ela nem eles acreditavam naquela encenação.
Mas quem teria mandado fazer aquela coisa como se fosse, como já disseram, trabalho de colégio em uma cartolina? Como todos eles de alguma forma se prestaram a legitimar, pelos comentários, aquele powerpoint grotesco?
No pedido público de desculpas, na segunda-feira, dia 23, a jornalista disse que “o material estava errado e incompleto”. E também, informou ela, a arte não deixou claro o critério usado para a seleção das informações.
Não foi uma correção de um erro qualquer, que é da rotina do jornalismo, como se vê na própria Globo e com frequência no Jornal Nacional. Foi um erro gigantesco, com impacto político, atribuído a uma arte equivocada.
O jornalismo vive de fazer perguntas. Por que Andréia, a âncora poderosa, seguiu a arte, quando a arte é que deveria segui-la? Por que a arte estava errada e ali ficou? O quadro foi feito por alguém da equipe, que o apresentou para que Andréia comentasse?
Quem foi o doutor Victor Frankenstein daquela criatura, que ganhou vida e, impositiva e descontrolada, obrigou quatro jornalistas a comentá-la como se tivesse fundamento para a explicação do Caso Master?
Perguntar é preciso. Por que Andréia não corrigiu a arte ao vivo, ao perceber, com sua capacidade de discernimento, que aquilo era colegial, primário e quase infantil, além de ser difamatório?
Quem induziu uma jornalista com a sua trajetória a um erro histórico, não só para a Globo, mas para o jornalismo brasileiro? Um dia saberemos, talvez com a ajuda de um powerpoint.
Originalmente publicado em Extra Classe