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“Não é normal ver seu agressor na TV todos os dias”: os relatos de 5 vítimas de Epstein

O financista Jeffrey Epstein. Foto: reprodução

Como muitas das vítimas que sofreu nas mãos de Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais, Joanna Harrison nunca quis falar sobre os abusos até a última sexta-feira (27), quando participou do programa “Newsnight”, da BBC. Na ocasião, ela disse que os ataques a deixaram com vergonha e constrangimento. Mas, depois que seu nome foi divulgado sem autorização na liberação de milhões de documentos pelo governo estadunidense, Harrison sentiu que precisava se manifestar.

“Chega um ponto em que você está sendo sufocada e precisa respirar, e sinto que esta é a minha forma de tentar respirar”, afirmou ao programa da BBC.

O “Newsnight” reuniu Harrison e outras quatro vítimas de Epstein pela primeira vez na mesma sala. Durante a conversa, que durou horas, houve gestos de apoio e, enquanto observavam fotos de si mesmas da época em que conheceram o pedófilo, houve lágrimas.

Na ampla entrevista, as sobreviventes relataram histórias de dor e raiva. Algumas lembraram o período que passaram na ilha privada de Epstein, Little St James, enquanto outras relembraram momentos perturbadores em seu rancho no Novo México. Elas disseram acreditar que as figuras poderosas com quem ele se associava provavelmente sabiam o que acontecia.

Milhões de documentos relacionados às diversas investigações sobre Epstein foram divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA, mas parte do material sem tarjas não ocultou a identidade de suas vítimas. Harrison foi uma das pessoas cujo nome foi tornado público. Ela disse nunca ter querido que os arquivos fossem divulgados, temendo perder o anonimato. “Não é normal ver o rosto do seu agressor todos os dias por seis anos na TV”, afirmou.

Harrison relatou ter conhecido Epstein na Flórida quando tinha 18 anos e, como outras sobreviventes, disse que tudo começou com uma massagem. “Tudo parecia normal. Quando ele começou a se masturbar, eu simplesmente congelei. Acho que não disse duas palavras no carro durante o trajeto de volta para casa”.

Victoria Derbyshire, de vestido azul, entrevistando 5 vítimas de Epstein. Foto: reprodução

Ela contou depois que Epstein a estuprou no dia do aniversário dele. Falando publicamente pela primeira vez, Harrison disse duvidar que ela e outras vítimas algum dia obterão justiça agora que Epstein está morto. “Tenho perguntas para as quais nunca terei resposta”.

Chauntae Davies compartilhou com o programa imagens inéditas de quando viajou com Epstein em seu avião particular para a África. As fotos incluíam Ghislaine Maxwell, cúmplice de Epstein, além do ator Kevin Spacey e do ex-presidente estadunidense Bill Clinton. Spacey e Clinton participavam de uma viagem humanitária para promover a prevenção da Aids.

“Na época, descrevi em meu diário como o grupo mais eclético de pessoas que você poderia reunir… era quase como um clima de acampamento, porque estávamos viajando para cinco países diferentes em cinco dias. No avião, eles comiam petiscos, jogavam cartas e contavam histórias”, contou Davies. “Foi uma viagem única na vida e, infelizmente, teve de ser manchada pelo que estava acontecendo a portas fechadas”.

Davies disse que foi estuprada por Epstein em sua ilha particular depois de ser contratada para lhe fazer massagens. Massoterapeuta qualificada, ela recordou que fez uma massagem no pescoço e nas costas de Clinton em um aeroporto em Portugal, enquanto o avião reabastecia. Na época, disse ter escrito em seu diário que o ex-presidente era humilde, gentil e carismático.

Clinton foi questionado sobre essa interação quando prestou depoimento perante o Comitê de Supervisão da Câmara dos EUA, em fevereiro. Ele disse ao comitê que gostaria que Davies tivesse lhe contado sobre as irregularidades de Epstein.

Mas Davies afirmou que nunca considerou contar a ele: “Eu nunca falaria sobre isso com ninguém. O que ele teria feito, de verdade? Será que [Clinton] poderia ter impedido isso? Acho que nunca vamos saber.” Em determinado momento, enquanto estava em Portugal com o ex-presidente, Davies lembrou ter ajudado Clinton a comprar joias para sua filha, Chelsea.