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Bolsonaro, Hitler e as cenas de amor por cachorros para humanizar monstros

Na sexta-feira (27), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) recebeu alta médica do Hospital DF Star, onde esteve internado devido a um quadro de pneumonia bacteriana. Ele agora cumpre prisão domiciliar em sua mansão em Brasília, após decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes.

Ao chegar em casa, Bolsonaro estava usando colete e tornozeleira eletrônica. Em imagens gravadas por drone e divulgadas fartamente nas redes sociais, o ex-presidente aparece sentado em uma cadeira, brincando com seus cães. Em outra cena, um dos cachorros interage com Michelle Bolsonaro e outras pessoas estranhas em um clima “descontraído”.

Em 2020, o homem que ajudou a matar milhares de brasileiros com seu negacionismo e a venda de cloroquina usou seu simpático vira-lata para fazer um comentário desdenhoso sobre a vacinação. “Vacina obrigatória só aqui no Faísca”. A frase não apenas minimizou a gravidade da pandemia, mas também se amparou na figura do bicho para engajar sua base de apoio e minimizar a discussão sobre medidas de saúde pública.

Essa relação com cães e o uso deles como metáforas de “proteção” e “lealdade” foi usado com competência por Adolf Hitler e outros próceres do nazismo. A cachorrada nazista foi humanizada por seus pets.

O führer tinha uma enorme afeição por cães, especialmente os pastores alemães, que eram usados como símbolos de disciplina, lealdade e poder absoluto. Para Hitler, eram uma representação de sua própria autoridade e da obediência que ele exigia de todos ao seu redor.

A pastora Blondi, por exemplo, morreu com ele no bunker, fiel escudeira até o fim, como Eva Braun.

Havia um zoológico no campo de concentração de Buchenwald para o entretenimento dos oficiais nazistas. Aguns prisioneiros eram jogados na jaula dos ursos para diversão dos guardas.

Hitler admirava lobos. Ele gostava que seus amigos o chamassem de “Tio Wolf” (“Tio Lobo”). Sua sede de comando na Segunda Guerra Mundial era chamada de “Cânion do Lobo” e “Cova do Lobo”.

A propaganda nazista usava a imagem do “lobo selvagem”. Em 1928, Joseph Goebbels, que viria a ser o Ministro da Propaganda, ameaçou os políticos democratas da República de Weimar durante a campanha eleitoral: “Como um lobo se lançando no rebanho de ovelhas, é assim que nós viemos!”

Cinco anos depois, em 1933, os nazistas derrubaram a República de Weimar. Naquele mesmo ano, os nazistas aprovaram uma lei de proteção animal pioneira que, entre outras coisas, estipulava que os animais de sangue quente deveriam ser atordoados antes de serem abatidos. Um dos objetivos era proibir os judeus de realizar abates ritualísticos.

“Para os líderes nazistas, a proteção dos animais e os crimes contra a humanidade não eram uma contradição”, escreve Mohnhaupt em seu livro Tiere im Nationalsozialismus (Animais no Nacional Socialismo). “Pelo contrário, eles até se sentiam parte de uma elite moral.”