Logo DCM
Logo DCM
Apoie o DCM

Como a Alemanha está combatendo a falta de profissionais com recrutamento internacional

Ishu Gariya deixou a Índia para atuar como padeiro na região da Floresta Negra, na Alemanha. Foto: Divulgação

A Alemanha enfrenta um desafio crescente com a escassez de profissionais especializados. À medida que a geração mais velha se aposenta, a falta de jovens candidatos tem dificultado o preenchimento das vagas abertas, colocando em risco diversos setores essenciais da economia.

Segundo reportagem da BBC, para amenizar essa situação, o país tem voltado seus esforços para a atração de profissionais de outros países, como a Índia, onde existe uma grande oferta de jovens qualificados em busca de oportunidades no exterior.

O ponto de partida dessa iniciativa foi um simples e-mail recebido em fevereiro de 2021 por Handirk von Ungern-Sternberg. O contato, vindo da Índia, oferecia uma solução: “Temos muitas pessoas jovens e motivadas procurando treinamento vocacional e imaginamos se você estaria interessado.”

Na época, Ungern-Sternberg trabalhava para a Câmara de Profissionais Especializados de Freiburg, no sudoeste da Alemanha, uma organização que representa diversos setores como pedreiros, carpinteiros, açougueiros e padeiros.

A proposta não poderia ter chegado em momento mais oportuno, uma vez que os empregadores locais enfrentavam sérias dificuldades em encontrar trabalhadores.

“Tínhamos muitos empregadores desesperados, que não conseguiam encontrar quem trabalhasse para eles”, conta Von Ungern-Sternberg. “Por isso, decidimos tentar”, completou ele. Seu primeiro passo foi estabelecer contato com o sindicato local dos açougueiros.

Em 2022, a indústria de açougues da Alemanha vivia uma crise profunda, com o número de pequenas empresas familiares caindo drasticamente. Enquanto em 2022 havia 19 mil empresas no setor, em 2023 o número foi reduzido para menos de 11 mil.

Além disso, a dificuldade em atrair novos trabalhadores estava evidente. Joachim Lederer, presidente do sindicato dos açougueiros, destacou que, “nos últimos 25 anos, os jovens vêm tomando outros rumos”, afastando-se de profissões como a de açougueiro, uma atividade que exige muito esforço físico.

Diante dessa situação, a agência de empregos Magic Billion, com a qual Von Ungern-Sternberg passou a colaborar, recrutou 13 jovens indianos em 2022. Eles foram levados para cidades alemãs próximas à fronteira com a Suíça, onde iniciaram seus estágios.

Entre eles, estava uma jovem de 21 anos, que, pela primeira vez, saía da Índia. Ela expressou sua empolgação em viver uma experiência internacional, buscando um “padrão de vida muito alto” e maior segurança social. A chegada desses primeiros estagiários marcava o início de uma nova fase para a indústria alemã.

Handirk von Ungern-Sternberg recebeu um e-mail vindo da Índia que foi crucial para preencher as vagas disponíveis. Foto: Divulgação

Hoje, três anos após o início desse processo, a agência India Works, fundada por Von Ungern-Sternberg, em parceria com Aditi Banerjee da Magic Billion, já ajuda a trazer centenas de jovens indianos para a Alemanha. De 13, o número saltou para 200 jovens em açougues alemães, com perspectivas de crescimento contínuo.

A Índia, com sua população jovem e em busca de trabalho, representa uma reserva de mão de obra vital para a economia alemã. O impacto dessa colaboração não se limita ao setor de açougues.

De acordo com um estudo da Fundação Bertelsmann, a Alemanha precisará atrair 288 mil profissionais estrangeiros por ano até 2040 para manter sua força de trabalho estável. Isso ocorre devido à aposentadoria da geração baby boomer e à baixa taxa de natalidade.

Como solução, a Alemanha tem olhado cada vez mais para países como a Índia, que conta com 600 milhões de pessoas com menos de 25 anos. Em 2022, a Alemanha firmou um Acordo de Parceria de Mobilidade e Migração com a Índia, facilitando a entrada de trabalhadores qualificados.

A cota de vistos para profissionais indianos aumentou de 20 mil para 90 mil por ano, refletindo a crescente necessidade de mão de obra estrangeira. Em 2024, o número de profissionais indianos na Alemanha já chegava a 136.670, um grande salto em relação aos 23.320 registrados em 2015.

Jovens como Ishu Gariya, de 20 anos, fazem parte dessa transformação. Ele, que trocou a Índia pela Alemanha, trabalha como aprendiz de padeiro na região da Floresta Negra. O jovem abandonou a ideia de seguir uma carreira universitária para buscar uma profissão mais bem remunerada, que o permitisse ajudar sua família financeiramente. “Temos altos salários aqui”, afirma Gariya. “Por isso, vou poder ajudar financeiramente minha família”, completou ele.

Outro exemplo é Ajay Kumar Chandapaka, de 25 anos, engenheiro mecânico que optou por trabalhar como motorista de caminhão em Freiburg. Ele relatou que, na Índia, foi difícil encontrar um emprego em sua área e, por isso, viu o “Ausbildung”, termo alemão para estágio ou treinamento, como a melhor opção para sua carreira.

Esse fluxo de profissionais não só está preenchendo lacunas em setores como o açougueiro e o de transporte, mas também ajudando a salvar negócios locais. Joachim Lederer, por exemplo, relata que, sem os jovens indianos, ele não teria conseguido manter seu açougue em funcionamento, já que sua empresa foi uma das poucas que resistiram ao declínio do setor.

A prefeita de Weil am Rhein, Diana Stöcker, também está se preparando para contratar profissionais indianos para cargos na educação, como professores de jardim de infância. “Estávamos procurando professores em toda a Alemanha, mas é difícil encontrar”, disse ela, reconhecendo que a solução está no exterior.