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Por que Trump deixou o petroleiro russo chegar a Cuba

navio russo Anatoly Kolodkin
O navio russo Anatoly Kolodkin – Reprodução

Quando Donald Trump aceitou a chegada do navio russo Anatoly Kolodkin a Matanzas, carregado com cerca de 700 mil barris de petróleo, a Casa Branca tentou vender a decisão como um gesto de pragmatismo humanitário e como uma vitória definitiva sobre Cuba.

Trump declarou que não tinha “problema” com o envio de petróleo a Cuba, “fosse da Rússia ou de qualquer outro país”, porque a população “tem de sobreviver”, que Cuba estava “acabada” e que um navio de petróleo “não faria diferença”.

O cinismo e o cálculo de Trump dizem muito mais sobre o momento do poder americano num mundo em reconfiguração do que sobre Cuba. Não há dúvida de que a autorização da passagem veio depois de uma política de coerção de Washington que já havia empurrado a população cubana para uma crise humanitária gravíssima, onde analistas chegam a falar de uma “gazificação de Cuba”, ou no mínimo de uma situação de catástrofe humanitária de cenários de guerra.

Cuba ficou três meses sem receber um petroleiro, enquanto o colapso energético aprofundava apagões, risco hospitalar e desorganização de serviços essenciais, inclusive de abastecimento de água. No sistema de saúde, 96 mil pessoas estão à espera de cirurgia, entre elas 11 mil crianças; mais de 300 cirurgias pediátricas por semana sofrem com falta de remédios, oxigênio, anestesia e outros insumos.

Também é certo que o carregamento russo, embora politicamente importante, é materialmente limitado: 730 mil barris representam um alívio temporário de apenas 9 ou 10 dias. Em termos de efeitos práticos, Washington podia permitir esse envio específico sem abandonar a estratégia de asfixia.

Donald Trump, presidente dos EUA, sério, sentado, sem olhar para a câmera
Donald Trump, presidente dos EUA – Reprodução

Mas, ainda que a política de estrangulamento a Cuba permaneça intacta, por que Trump deixaria o navio russo chegar a Cuba a partir de uma coordenação diplomática? O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a questão do navio foi levantada previamente nos contatos com os “parceiros americanos”. Portanto, não estamos diante de uma surpresa tática que Washington não conseguiu impedir, mas de uma operação conhecida, discutida e, no fim, tolerada.

Aqui, Moscou ganha influência, presença e demonstração de força. Ao entregar petróleo quando Washington queria asfixiar a ilha, a Rússia se apresenta como potência capaz de furar o estrangulamento americano a apenas 145 quilômetros dos Estados Unidos e expõe, com sucesso, os limites reais da coerção norte-americana — num momento geopolítico em que o Irã destrói o mito da invencibilidade americana. Cuba volta a ter valor simbólico e estratégico de solidariedade e resistência histórica contra o imperialismo americano, mais do que nunca.

Trump teve de abrir passagem porque o bloqueio total havia entrado em contradição com outras necessidades do próprio império. Barrar à força um petroleiro russo ligado à chamada “shadow fleet” significaria elevar o custo da confrontação num momento em que os Estados Unidos e a Europa vivem um período precário da sua geopolítica.

O fechamento do Estreito de Ormuz produziu um choque energético internacional, no qual a Europa passa a reverter de forma dissimulada o cerco à Rússia. A Comissão Europeia, por exemplo, adiou a proposta de transformar em lei permanente o banimento do petróleo russo.

O analista político britânico Carlos Martinez-Brar explica que “para a Guarda Costeira dos EUA interferir, em águas internacionais, numa remessa de petróleo bruto russo para Cuba acordada bilateralmente seria, além de uma flagrante violação do direito internacional, uma provocação perigosa. A Rússia dispõe, neste momento, de vários instrumentos de pressão que pode acionar, enquanto os EUA e seus aliados fazem de tudo para estimular os fluxos de energia.

Sua guerra criminosa contra o Irã levou a uma crise crescente de petróleo, gás e fertilizantes — que em breve se manifestará como uma crise industrial, inflacionária e de produção de alimentos. Nessa situação singular e frágil, interferir com petroleiros russos não parece ser uma opção real.”

Uma vez mais, Cuba, uma pequena ilha sob feroz embargo, é mensageira da sua própria grandiosa história de internacionalismo, solidariedade e legado de luta anticolonial.

Doe para a campanha de solidariedade a Cuba organizada pelo MST: PIX CNPJ: 11.586.301/0001-65 — Instituto Cultivar Banco: Caixa Econômica Federal | Agência: 1231 | Operação: 1292 Conta Corrente: 000577559399-1