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Sakamoto: Ao prometer anistia a Bolsonaro como 1º ato, Caiado mata 3ª via no berço

Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro. Foto: reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

E a terceira via nasceu morta — para a surpresa de ninguém. Como primeiro ato de seu hipotético governo, Ronaldo Caiado prometeu aprovar leis para reduzir o déficit habitacional e aumentar a segurança nas cidades. Brincadeira: anunciou que anistiaria Jair Bolsonaro e demais golpistas.

Com isso, ele enterra a imagem de um candidato independente dos dois principais campos políticos — o lulismo e o bolsonarismo — logo no evento que lançou sua pré-candidatura. Aliás, as cutucadas em Flávio Bolsonaro por falta de experiência não substituem a falta de comentários sobre corrupção.

“Meu objetivo é pacificar o Brasil ao anistiar todos, inclusive o ex-presidente, dando mostras de que, a partir dali, vou cuidar das pessoas”, afirmou. “Meu primeiro ato será exatamente a anistia ampla, geral e irrestrita.”

Caiado promete que não será linha auxiliar de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais de outubro, ou seja, que não será um novo Padre Kelmon. Ainda assim, ao propor coisas assim para tentar abocanhar votos bolsonaristas, que já estão com o primogênito do patriarca, corre o risco de perder o de democratas.

O perdão a quem tentou um golpe de Estado não vai pacificar o Brasil, mas incendiá-lo. Aqueles que se apresentam como bombeiros, buscando o autointitulado “meio-termo da razão” e abrindo as portas da cadeia, na verdade apenas alimentam a indignação da parcela da sociedade que crê na lei. Isso ficou claro quando multidões foram às ruas, no ano passado, contra o projeto de anistia, reorganizado no PL da Dosimetria, e contra a PEC da Blindagem.

A turma criada no leite com pera, que insiste em dizer que o meio-termo é sempre a voz da razão, precisa estudar História — até para não passar vergonha ao usar generalizações toscas. Pois o argumento de que a solução ideal está entre os interesses dos golpistas e da democracia lembra muito o de quem, pouco antes da Lei Áurea, defendia que o Brasil iria quebrar com o fim da escravidão e, portanto, seria necessário encontrar uma saída que desagradasse os proprietários de seres humanos, mas também os próprios seres humanos tratados como propriedade.

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) e Gilberto Kassab. Foto: Aloisio Mauricio/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Qualquer marmota que não cabula as aulas de História para ficar jogando LoL já aprendeu que golpes anistiados ao longo da nossa República imediatamente gestaram o próximo.

Se o Parlamento e os políticos que tentam ser herdeiros de Bolsonaro não entenderem isso e forçarem a barra, estarão simplesmente gerando caos, alimentando o confronto entre quem quer ver a lei cumprida e quem deseja seus bandidos de estimação livres para tentar um novo golpe.

Tal como a impunidade pelo golpe de 1964 levou parte dos militares a se alinhar em torno de novas rupturas institucionais sob o bolsonarismo, a anistia aos que atentaram contra o Estado democrático de Direito abre a porteira para novos ataques a bomba e agressões contra autoridades nos próximos anos. Vai “passar a boiada” da violência contra as instituições, gestando novas intentonas.

O bolsonarismo e seus aliados no centrão tentam convencer que o melhor para o país é um arranjo que não puna ninguém pelos crimes cometidos, a fim de “pacificar” o Brasil. A punição dos culpados é que pode pacificar o país, como se verifica em qualquer livro de História que trate de como nações lidaram com aqueles que tentaram se manter no poder à força.

Ao detonar bombas na Praça dos Três Poderes, em Brasília, e depois se explodir em frente ao Supremo Tribunal Federal, em 13 de novembro de 2024, Francisco Wanderley Luiz, conhecido como “Tiu França”, um chaveiro catarinense e candidato derrotado à Câmara de Vereadores de Rio do Sul (SC) pelo PL, mostrou o que pode acontecer quando punições rigorosas não são aplicadas a quem tenta derrubar a democracia.

Já em 29 de dezembro do mesmo ano, o corretor de imóveis Lucas Ribeiro Leitão, de Fortaleza, foi preso a caminho de Brasília por equipes da Divisão de Proteção e Combate ao Extremismo Violento da Polícia Civil do DF. Ele confessou que planejava um ataque à capital federal. Um dia antes, o advogado Fabrízio Domingues Ferreira ameaçou explodir as sedes da Polícia Militar e da Polícia Federal no Distrito Federal e afirmou já possuir bombas. A PM não encontrou explosivos com ele e indicou que estava em surto psicótico.

Em fevereiro de 2025, um eletricista e mecânico de Samambaia (DF) tentou invadir o prédio do Supremo Tribunal Federal, proferindo ameaças contra ministros da Corte. Investigação da Polícia Civil indicou que ele “planejava ações extremistas” e, em sua casa, foi encontrado material para a fabricação de bomba.

A esses planos somam-se outros, como a bomba colocada em um caminhão de combustível para explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal de 2022. Os envolvidos queriam que as centenas de mortes decorrentes do atentado abrissem caminho para uma intervenção das Forças Armadas.

Ou ainda os veículos incendiados em Brasília, espalhando terror em 12 de dezembro de 2022, dia da diplomação de Lula e Alckmin no TSE, após bolsonaristas tentarem libertar um aliado preso na Polícia Federal.

Atentados não foram planejados apenas por civis. O plano “Punhal Verde e Amarelo” previa o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes por integrantes das forças especiais do Exército e quase teve sucesso.

Cabe às instituições e à sociedade pôr fim a esse explosivo círculo vicioso. Quem defende a anistia está sendo corresponsável pelos ataques que vierem a ocorrer contra as instituições. O que mostra que a defesa da segurança pública por alguns candidatos é apenas para inglês ver.