
A morte de Noelia Castillo, jovem paraplégica de 25 anos que recebeu a eutanásia na Espanha na última quinta-feira (25), continua provocando repercussões políticas, judiciais e agora também internacionais. Segundo o jornal New York Post, os Estados Unidos abriram uma investigação para obter informações sobre a forma como o caso foi conduzido e sobre as decisões que permitiram a realização do procedimento.
A notícia surgiu dias depois de Noelia morrer, após quase dois anos de batalha judicial movida por seu pai, representado pela organização ultracatólica Abogados Cristianos, que tentou sem sucesso anular sua decisão. Até cinco instâncias da Justiça espanhola validaram o pedido da jovem.
De acordo com a publicação, autoridades estadunidenses teriam solicitado informações à Espanha por meio da embaixada em Madri. A reportagem afirma que integrantes do Departamento de Estado demonstraram preocupação com possíveis falhas na proteção de pessoas vulneráveis e questionaram a aplicação da lei da eutanásia em situações de sofrimento não terminal ou de natureza psiquiátrica.
Noelia teria manifestado “dúvidas” sobre o procedimento, o que teria gerado inquietação em relação a direitos humanos. Até o momento, porém, a embaixada dos Estados Unidos em Madri não confirmou de forma independente as informações publicadas pelo jornal.
A reação ocorre no mesmo momento em que a Abogados Cristianos anunciou que também denunciará a médica responsável pela tramitação da eutanásia de Noelia por “prevaricação e conflito de interesses”.
Em resposta, o presidente da Generalitat, Salvador Illa, saiu em defesa dos profissionais de saúde. “Defenderemos com toda a firmeza aos profissionais do nosso sistema de saúdem contra qualquer ataque mal-intencionado que questione seu valor e atuação. Defendemos o direito de uma morte digna após ser aprovado um dos marcos legais mais avançados e exemplaros do mundo”, afirmou.
Defensarem amb tota la fermesa els i les professionals del nostre sistema sanitari davant de qualsevol atac malintencionat que vulgui malmetre la seva vàlua i actuació.
Defensem el dret a una mort digna després d’aprovar un dels marcs legals més avançats i exemplars del món.
— Salvador Illa Roca (@salvadorilla) April 1, 2026
Segundo fontes do governo catalão, a denúncia e as informações vindas dos Estados Unidos são vistas como parte de uma ofensiva mais ampla contra a lei da eutanásia, impulsionada em 2021 pelo próprio Illa, quando era ministro da Saúde.
A trajetória de Noelia foi marcada por violência e sofrimento. O texto relata que ela passou um período sob tutela da Generalitat por negligência dos pais, sofreu episódios de violência sexual e tentou tirar a própria vida diversas vezes. Em outubro de 2022, pouco depois de ter sido vítima de um estupro coletivo, tentou suicídio e ficou paraplégica.
A eutanásia foi autorizada em julho de 2024 pela Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, que concluiu que ela apresentava quadro clínico “não recuperável”, com “dependência grave, dor e sofrimento crônico e incapacitante”. Ao longo de todo o processo judicial, Noelia reiterou o desejo de receber a ajuda para morrer, mas a decisão foi constantemente contestada pelo pai. Exames médicos e decisões judiciais concluíram que ela tinha capacidade para decidir.
Nos últimos dias antes da morte, o caso também foi alvo de desinformação nas redes sociais. Circularam boatos de que Noelia teria sido estuprada por um grupo de menores estrangeiros não acompanhados ou por “imigrantes ilegais” enquanto estava sob tutela da Generalitat, mas o texto afirma que não há evidências disso.
Fontes da Direção-Geral de Prevenção e Proteção da Infância e Adolescência informaram que não existe “nenhum incidente de agressão sexual registrado” nos dois centros residenciais em que ela viveu entre 2015 e 2019. O caso, portanto, segue cercado de disputa política, pressão judicial e campanhas de desinformação mesmo após a morte da jovem.