
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Com um atraso de quase 12 anos, o Estado de São Paulo entregou hoje a Linha 17-Ouro do metrô, que vai ligar o Morumbi ao Aeroporto de Congonhas, em um evento com a presença do governador Tarcísio de Freitas. Todo paulistano sabe que o transporte de massa sobre trilhos costuma ganhar novas estações ou linhas em ano eleitoral e, desta vez, não foi diferente. A Ouro nasce com dois óbitos de operários nas costas e um traçado que não atende às necessidades da população que mais precisa de metrô.
A linha era para ter ficado pronta para a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil, ligando o estádio do Morumbi ao aeroporto, quando Geraldo Alckmin, hoje vice-presidente, ainda era governador. A partir do momento em que o Corinthians ganhou o direito de sediar a Copa, em seu estádio na zona leste, o projeto poderia ter sido alterado para focar nas áreas mais vulneráveis. Mas não foi.
Agora, o governo Tarcísio de Freitas entrega a Ouro integrando a região da avenida Luiz Carlos Berrini, um dos principais centros empresariais da capital, a Congonhas. Trabalhadores da região de Santo Amaro, Campo Limpo e Capão Redondo que trabalham na avenida vão usufruir do sistema, mas aposto uma barra de cereal e um copo de água que ele não vai reduzir os congestionamentos perto do aeroporto, pois quem frequenta aquela região e pega avião vai continuar usando táxi ou transporte por aplicativos.
São Paulo é uma cidade gigante, precisando de linhas que atendam regiões descobertas. O lançamento dessa linha, com traçado repaginado e sob nova justificativa, é a coroação da falta de planejamento urbano, que é uma das principais características de nossa política de transporte. A responsabilidade não é apenas do governo de plantão, mas de todos os que vieram antes dele também.

Em 2016, o governo do estado rescindiu o contrato com as construtoras, deixando a obra parada por anos, e a Lava Jato dificultou nova contratação. Mas isso teria sido evitado se a linha tivesse sido repensada lá atrás. Agora, o jeito para o governo de turno é vender um abacaxi para a cidade como um triunfo.
Em 2014, o operário Juraci Cunha dos Santos morreu quando uma viga de sustentação caiu. E em 2019, o operário Irisvan Silva Resende morreu na obra do pátio Água Espraiada.
As tragédias que marcaram sua construção e as escolhas equivocadas em seu planejamento deveriam servir como alerta, mas, ao que tudo indica, continuam sendo apenas mais um capítulo de uma longa história de decisões mal alinhadas com o interesse público no transporte sobre trilhos. Enquanto isso, São Paulo segue crescendo de forma desigual, aguardando soluções que, mais uma vez, ficam para depois.