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Em carta, presidente do Irã acusa Trump de enganar cidadãos e diz não ser inimigo dos EUA

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian. Foto: Divulgação

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, enviou uma carta histórica ao povo norte-americano, na qual procurou esclarecer a posição de seu país em relação à guerra com os Estados Unidos e criticou as ações do governo de Donald Trump. É a primeira vez que o governo iraniano se dirige diretamente à população americana desde o início do conflito no Oriente Médio.

Na carta, Pezeshkian fez questão de afirmar que o Irã não possui “inimizade com as pessoas comuns dos Estados Unidos” e que não representa uma ameaça ao país. O presidente iraniano acusou o governo de Donald Trump de enganar os próprios cidadãos, ao justificar o conflito como uma medida de defesa dos interesses dos americanos.

“Exatamente quais interesses do povo americano estão sendo atendidos por esta guerra? Houve alguma ameaça objetiva do Irã para justificar tal comportamento?””, questionou Pezeshkian, apontando as ações de Washington como manipulativas.

Além disso, Pezeshkian sugeriu que os cidadãos norte-americanos deveriam refletir sobre a verdadeira motivação do conflito. “Se Washington está realmente colocando os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar ou se está apenas agindo como um representante de Israel”.

Ele também acusou o governo de Trump de estar disposto a continuar a guerra “até o último soldado americano”, implicando que a guerra não tem base na proteção dos EUA, mas sim em interesses externos.

O presidente do Irã fez uma clara separação entre o governo dos EUA e seu povo, afirmando: “O povo iraniano não nutre qualquer inimizade contra outras nações, incluindo os povos da América, da Europa ou dos países vizinhos”. Pezeshkian explicou que as ações do Irã até agora foram apenas uma resposta baseada na “legítima defesa”, e não uma iniciativa de guerra ou agressão.

“O que o Irã fez – e continua a fazer – é uma resposta ponderada, baseada na legítima defesa, e de forma alguma uma iniciação de guerra ou agressão”, afirmou na carta.

Incêndio de grandes proporções atinge refinaria em Haifa após ataque iraniano em 30 de março de 2026. Foto: Divulgação

A mensagem de Pezeshkian também abordou o histórico das hostilidades entre o Irã e o Ocidente, particularmente as tensões que surgiram em 1953, quando a CIA e o MI6 do Reino Unido orquestraram o golpe de Estado que depôs o primeiro-ministro Mohammad Mossadegh.

O presidente iraniano classificou esse evento como “uma intervenção ilegal dos Estados Unidos”, que resultou na interrupção do processo democrático iraniano e no retorno de uma ditadura. Para Pezeshkian, essa intervenção gerou uma desconfiança profunda entre os iranianos em relação às políticas dos EUA, uma desconfiança que perdura até os dias atuais.

Ele também sugeriu que a percepção do Irã como uma ameaça internacional é resultado de interesses políticos e econômicos de grupos poderosos, e não de ações agressivas por parte do Irã.

“O Irã nunca, em sua história moderna, escolheu o caminho da agressão, da expansão, do colonialismo ou da dominação, e nunca iniciou qualquer guerra”, afirmou Pezeshkian. Para ele, as ações do Irã devem ser vistas como respostas a ameaças externas, e não como uma busca por conquistas territoriais.

Pezeshkian ainda fez um apelo aos cidadãos norte-americanos para que “olhassem além da retórica política”, sugerindo que a guerra não serve aos seus interesses, mas sim a objetivos ocultos e interesses externos.

Confira a carta na íntegra:

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso

Ao povo dos Estados Unidos da América e a todos aqueles que, em meio a uma inundação de distorções e narrativas fabricadas, continuam a buscar a verdade e a aspirar a uma vida melhor:

O Irã — por este próprio nome, caráter e identidade — é uma das civilizações contínuas mais antigas da história humana. Apesar de suas vantagens históricas e geográficas em vários momentos, o Irã nunca, em sua história moderna, escolheu o caminho da agressão, da expansão, do colonialismo ou da dominação. Mesmo após suportar ocupação, invasão e pressão contínua de potências globais — e apesar de possuir superioridade militar sobre muitos de seus vizinhos —, o Irã nunca iniciou uma guerra. No entanto, repeliu de forma resoluta e corajosa aqueles que o atacaram.

O povo iraniano não nutre inimizade em relação a outras nações, incluindo os povos da América, da Europa ou de países vizinhos. Mesmo diante de repetidas intervenções e pressões estrangeiras ao longo de sua orgulhosa história, os iranianos têm consistentemente traçado uma distinção clara entre os governos e os povos que eles governam. Este é um princípio profundamente enraizado na cultura e na consciência coletiva iraniana — não uma postura política temporária.

Por esta razão, retratar o Irã como uma ameaça não é consistente com a realidade histórica nem com os fatos observáveis dos dias atuais. Tal percepção é o produto dos caprichos políticos e econômicos dos poderosos — a necessidade de fabricar um inimigo a fim de justificar a pressão, manter o domínio militar, sustentar a indústria armamentista e controlar mercados estratégicos. Nesse ambiente, se uma ameaça não existe, ela é inventada.

Dentro dessa mesma estrutura, os Estados Unidos concentraram o maior número de suas forças, bases e capacidades militares ao redor do Irã — um país que, pelo menos desde a fundação dos Estados Unidos, nunca iniciou uma guerra. Recentes agressões americanas lançadas a partir dessas mesmas bases demonstraram o quão ameaçadora essa presença militar realmente é. Naturalmente, nenhum país confrontado com tais condições abriria mão de fortalecer suas capacidades defensivas. O que o Irã fez — e continua a fazer — é uma resposta comedida baseada na legítima defesa e, de forma alguma, a iniciação de uma guerra ou agressão.

As relações entre o Irã e os Estados Unidos não eram originalmente hostis, e as interações iniciais entre os povos iraniano e americano não foram manchadas por hostilidade ou tensão. O ponto de virada, no entanto, foi o golpe de Estado de 1953 — uma intervenção americana ilegal com o objetivo de impedir a nacionalização dos próprios recursos do Irã. Aquele golpe interrompeu o processo democrático do Irã, restabeleceu a ditadura e semeou uma profunda desconfiança entre os iranianos em relação às políticas dos EUA. Essa desconfiança se aprofundou ainda mais com o apoio da América ao regime do Xá, seu respaldo a Saddam Hussein durante a guerra imposta da década de 1980, a imposição das sanções mais longas e abrangentes da história moderna e, por fim, com a agressão militar não provocada — duas vezes, no meio de negociações — contra o Irã.

No entanto, todas essas pressões não conseguiram enfraquecer o Irã. Pelo contrário, o país tornou-se mais forte em muitas áreas: as taxas de alfabetização triplicaram — de cerca de 30% antes da Revolução Islâmica para mais de 90% hoje; o ensino superior expandiu-se dramaticamente; avanços significativos foram alcançados na tecnologia moderna; os serviços de saúde melhoraram; e a infraestrutura desenvolveu-se em um ritmo e escala incomparáveis ao passado. Estas são realidades mensuráveis e observáveis que existem independentemente de narrativas fabricadas.

Ao mesmo tempo, o impacto destrutivo e desumano das sanções, da guerra e da agressão na vida do resiliente povo iraniano não deve ser subestimado. A continuação da agressão militar e os recentes bombardeios afetam profundamente a vida, as atitudes e as perspectivas das pessoas. Isso reflete uma verdade humana fundamental: quando a guerra inflige danos irreparáveis a vidas, lares, cidades e futuros, as pessoas não permanecerão indiferentes em relação aos responsáveis.

Isso levanta uma questão fundamental: exatamente quais dos interesses do povo americano estão sendo verdadeiramente servidos por esta guerra? Houve alguma ameaça objetiva por parte do Irã para justificar tal comportamento? O massacre de crianças inocentes, a destruição de instalações farmacêuticas de tratamento de câncer ou o orgulho de bombardear um país “de volta à idade da pedra” servem a algum propósito além de prejudicar ainda mais a posição global dos Estados Unidos?

O Irã buscou negociações, chegou a um acordo e cumpriu todos os seus compromissos. A decisão de se retirar desse acordo, escalar rumo ao confronto e lançar dois atos de agressão no meio de negociações foram escolhas destrutivas feitas pelo governo dos EUA — escolhas que serviram aos delírios de um agressor estrangeiro.

Atacar a infraestrutura vital do Irã — incluindo instalações energéticas e industriais — atinge diretamente o povo iraniano. Além de constituir um crime de guerra, tais ações trazem consequências que se estendem muito além das fronteiras do Irã. Elas geram instabilidade, aumentam os custos humanos e econômicos, e perpetuam ciclos de tensão, plantando sementes de ressentimento que durarão anos. Esta não é uma demonstração de força; é um sinal de desorientação estratégica e de uma incapacidade de alcançar uma solução sustentável.

Não é também o caso de que a América entrou nesta agressão agindo por procuração de Israel, influenciada e manipulada por esse regime? Não é verdade que Israel, ao fabricar uma ameaça iraniana, busca desviar a atenção global de seus crimes contra os palestinos? Não é evidente que Israel agora tem como objetivo lutar contra o Irã até o último soldado americano e o último dólar do contribuinte americano — transferindo o fardo de seus delírios para o Irã, para a região e para os próprios Estados Unidos em busca de interesses ilegítimos?

“America First” [América em Primeiro Lugar, em tradução livre] está verdadeiramente entre as prioridades do governo dos EUA hoje?

Convido-os a olhar além da máquina de desinformação — uma parte integrante desta agressão — e, em vez disso, a conversar com aqueles que visitaram o Irã. Observem os muitos e bem-sucedidos imigrantes iranianos — educados no Irã — que hoje lecionam e conduzem pesquisas nas universidades mais prestigiadas do mundo, ou contribuem para as empresas de tecnologia mais avançadas do Ocidente. Essas realidades se alinham com as distorções que lhes são contadas sobre o Irã e seu povo?

Hoje, o mundo encontra-se em uma encruzilhada. Continuar no caminho do confronto é mais custoso e fútil do que nunca. A escolha entre confronto e engajamento é real e cheia de consequências; seu resultado moldará o futuro para as próximas gerações. Ao longo de seus milênios de história orgulhosa, o Irã sobreviveu a muitos agressores. Tudo o que resta deles são nomes manchados na história, enquanto o Irã perdura — resiliente, digno e orgulhoso.