
Durante a Missa do Crisma celebrada na Quinta-feira Santa, o Papa Leão XIV afirmou que a missão cristã deve ser atuar como um contraponto àquilo que chamou de “ocupação imperialista do mundo”, advertindo que o abuso de poder jamais produz frutos positivos — seja no campo pastoral, social ou político.
Na celebração realizada na Basílica de São Pedro, o pontífice destacou que a missão confiada por Deus não pode ser distorcida por ambições de dominação, algo que classificou como completamente estranho ao ensinamento de Jesus Cristo.
Segundo ele, a cruz faz parte inseparável dessa missão: ao mesmo tempo em que torna o caminho mais difícil e desafiador, também o transforma e liberta. Nesse sentido, afirmou que a lógica de violência — frequentemente dominante — é desmascarada a partir de dentro quando confrontada pelo verdadeiro espírito cristão.
A fala ocorre em meio à guerra de EUA e Israel contra o Irã e ao genocídio em Gaza.
A Missa do Crisma, uma das principais celebrações da Quinta-feira Santa, inclui a bênção dos óleos sagrados usados ao longo do ano em sacramentos como batismo, crisma, unção dos enfermos e ordenação sacerdotal. Durante a cerimônia, padres também renovam seus compromissos.
Celebrando o rito pela primeira vez como bispo de Roma, Leão XIV dirigiu-se a cerca de mil sacerdotes e reforçou que a missão cristã não é individualista nem desconectada da Igreja. Cada fiel participa segundo sua vocação, disse, mas sempre em comunhão.
O papa também destacou que o Tríduo Pascal — iniciado nessa mesma data — convida os cristãos não a fugir das provações, mas a atravessá-las com Cristo. Segundo ele, esse processo tem o poder de transformar profundamente a identidade humana e a forma como as pessoas se situam no mundo.
Ele reforçou ainda que a Igreja é, por natureza, missionária e dinâmica, e não uma instituição estática. Bispos e padres, afirmou, devem servir a esse povo em movimento, evitando que a missão seja deformada por lógicas mundanas.
Em um dos trechos mais contundentes, Leão XIV criticou a associação entre fé e demonstrações de poder. Para ele, o amor cristão autêntico não se expressa por força, ostentação ou estratégias calculadas, mas pela simplicidade, pelo serviço e pelo respeito às fragilidades humanas.
O pontífice também fez um alerta direto sobre a relação com os pobres: não há “boa nova” quando se chega até eles ostentando sinais de poder, nem verdadeira libertação sem desapego. Em vez disso, exaltou o exemplo de missionários que atuam de forma discreta, compartilhando a vida, servindo sem interesses e dialogando com respeito.
Leão XIV ressaltou que a missão exige humildade diante das diferentes culturas e povos. “Como cristãos, somos hóspedes”, afirmou, defendendo que a Igreja deve priorizar escuta, acompanhamento e testemunho — e não ideias de conquista, mesmo em contextos de secularização.
Ele também abordou a possibilidade de rejeição, lembrando a expulsão de Jesus de Nazaré. Ainda assim, disse que essas experiências podem revelar a força mais profunda do Evangelho, especialmente quando vividas com entrega e serviço.
Durante a homilia, o papa citou Óscar Romero como exemplo de esperança perseverante em meio à violência.
Ao final, Leão XIV convocou os fiéis a renovar o compromisso com uma missão marcada pela unidade e pela paz. Em tom enfático, afirmou que, em um momento sombrio da história, os cristãos são chamados a levar vida onde prevalece a morte — superando o medo e o sentimento de impotência.
— Christopher Hale (@ChristopherHale) April 2, 2026