
A Petrobras avalia cancelar um leilão de gás de cozinha realizado nesta semana após pressão do presidente Lula. A operação terminou com ágios superiores a 100%, o que gerou reação do governo e de agentes do setor devido ao possível impacto no preço final do GLP.
Em entrevista à TV Record Bahia nesta quinta-feira (2), Lula criticou a realização do leilão e afirmou que a medida contraria orientações do governo. “Vamos anular esse leilão, porque o povo pobre não pagará, em hipótese alguma, o preço dessa guerra”, disse o presidente. Ele também classificou o caso como “bandidagem”.
O leilão havia sido suspenso anteriormente enquanto governo e Petrobras discutiam alternativas para reduzir o impacto da alta internacional do gás. Sem acordo sobre uma subvenção, a venda foi realizada na terça-feira (31), mesmo sob impasse interno.
Na operação, foi negociado volume equivalente a 11% do consumo de GLP previsto para abril. Os ágios começaram próximos de 30%, mas chegaram a 117% ao final do leilão, mais que dobrando o valor do produto em relação ao preço de refinaria.
Segundo apuração, integrantes da própria cúpula da Petrobras informaram ao governo que o leilão teria ocorrido sem autorização formal da direção da companhia. A estatal não comentou oficialmente o caso até o momento.
Um dos argumentos analisados para o eventual cancelamento envolve a Medida Provisória 1.340, editada em março, que prevê penalidades para aumentos considerados abusivos em derivados de petróleo e criou mecanismos de subvenção ao diesel.

A Petrobras mantém o preço do GLP nas refinarias sem reajuste desde julho de 2024. Desde então, leilões têm sido utilizados para repassar parte das variações do mercado internacional, especialmente sobre o gás importado.
Com a guerra envolvendo o Irã, o GLP importado registrou alta de cerca de 60%, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP). O cenário elevou a pressão sobre distribuidoras e sobre a própria estatal.
A Acelen, responsável por 4,7% do abastecimento nacional, anunciou reajuste de 15% no gás nesta quarta-feira (1), o primeiro desde o início do conflito no Oriente Médio. O movimento reforçou o alerta do setor sobre repasses ao consumidor.
O governo federal analisa conceder subsídios ao produto. O preço do gás é considerado estratégico pela gestão Lula, que ampliou em 2025 o programa de distribuição gratuita de botijões para cerca de 15 milhões de famílias de baixa renda.
Distribuidoras alertaram o Ministério de Minas e Energia sobre a necessidade de atualizar os preços de referência do programa. Em carta, o Sindigás afirmou que “a não atualização tempestiva das tabelas de preços de referência pode resultar em uma fuga massiva de revendas do programa e maior dificuldade na ampliação para os cerca de 900 municípios restantes”.