
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
João Henrique Alves Quintana estava bêbado dirigindo um Porsche Boxster quando bateu na contramão em outro carro, na madrugada de ontem, na avenida Conde de Frontin, zona leste de São Paulo. O motorista de um Fiat Siena estava a caminho do trabalho. Entregaria salgados para banquinhas de café em estações de metrô e terminais de ônibus. Ele está em estado grave.
Quintana também está internado e teve a prisão em flagrante decretada. Ele teria pego o carro emprestado para ostentar pela noite paulistana.
A culpa não é do automóvel, claro. Mas o Porsche pode acabar entrando nas estatísticas de violência como instrumento de morte ao lado de pistolas, revólveres, fuzis e facas, dada a frequência com que aparece em situações assim. Um instrumento que costuma passar de R$ 1 milhão.
O Porsche foi adotado por muita gente como símbolo de ostentação, não apenas de uma classe alta que quer deixar claro que tem cascalho, mas também de quem deseja mostrar que chegou lá e não faz mais parte da massa que pega busão ou anda de Uno. Em uma sociedade em que o valor das pessoas ainda é medido em cilindradas e na qual a exibição de carros potentes, não raro, é usada para compensar frustrações, isso é bastante comum.
Após uma série de acidentes envolvendo seus automóveis, ainda em 2024, a representante da Porsche no Brasil divulgou uma nota à imprensa. “Investimos extensivamente em programas de treinamento de condução como forma de ampliar a segurança no uso dos automóveis. Oferecemos também um amplo portfólio de oportunidades para utilização dos veículos em ambientes seguros e controlados”, disse a companhia.
Não está funcionando, pois claramente há motoristas de Porsche que acham que estão jogando GTA.
Nos últimos dois anos, acidentes de trânsito graves envolvendo carros da marca ganharam repercussão nacional, frequentemente associados a excesso de velocidade, imprudência ou consumo de álcool.
Em março de 2024, o motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana, de 52 anos, foi morto na zona leste da capital paulista quando seu Renault Sandero foi destruído pelo Porsche 911 Carrera de R$ 1,3 milhão de Fernando Sastre de Andrade, de 24 anos. Dois policiais que atenderam à ocorrência permitiram que sua mãe o levasse embora sob a justificativa de ir ao hospital. Só depois, PMs foram atrás dele para fazer o teste do bafômetro e foram informados de que ele nunca deu entrada no local informado. Com a repercussão negativa do caso, o Tribunal de Justiça de São Paulo decretou a prisão preventiva.
Outro que fugiu do local do crime sem prestar socorro naquele mesmo mês foi Arthur Torres Rodrigues Navarro, que matou o entregador de aplicativo Hudson de Oliveira Ferreira ao atingi-lo com o seu Porsche Cayenne de R$ 1,2 milhão, em alta velocidade, e fugir sem prestar socorro, em Campo Grande (MS). Hudson agonizou no hospital por dois dias.

Em julho daquele ano, Igor Ferreira Sauceda matou Pedro Kaique Ventura Figueiredo ao atropelar com seu Porsche, em alta velocidade, o motociclista na avenida Interlagos, zona sul de São Paulo, na madrugada. Um vídeo que circulou nas redes mostra Igor perseguindo Pedro, o que teria acontecido após uma discussão de trânsito.
Esses casos chamaram a atenção do país. Mas não foram os únicos, uma vez que acidentes envolvendo motoristas irresponsáveis conduzindo Porsches continuaram.
Por exemplo, em agosto de 2025, o influenciador Samuel Sant’anna, conhecido como “Gato Preto”, destruiu o Porsche 911 Carrera que dirigia na avenida Faria Lima, na capital paulista. As investigações apontaram que ele havia consumido álcool e ultrapassado o sinal vermelho em velocidade incompatível com a via. O influenciador fugiu do local após a batida, que destruiu o carro que um representante comercial usava para trabalhar, quebrando o maxilar de um dos ocupantes. A subcelebridade chegou a ironizar o acidente.
Em janeiro deste ano, Emerson Teixeira Muniz, o MC Tuto, foi preso após atropelar um jovem de 20 anos em Barueri, na Grande São Paulo, enquanto gravava um videoclipe em um Porsche em alta velocidade. Ele responde em liberdade por tentativa de homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de que a morte aconteça.
O que esses episódios escancaram é a combinação de sensação de impunidade e desprezo pela vida alheia. O carro, potente e caro, vira extensão de um comportamento que já existia antes da chave girar na ignição. Não é sobre engenharia, é sobre caráter — e sobre limites que, para alguns, simplesmente deixam de existir com a sensação de potência trazida pela ostentação.
Enquanto isso, do outro lado dessas histórias, estão quase sempre os mesmos: trabalhadores, entregadores, motoristas, gente comum que sai de casa para viver e não volta. Pessoas que não têm milhões na conta, nem advogados influentes, nem milhares de seguidores, nem a opção de transformar crime em problema passageiro.
Quando acidentes deixam de ser exceção e passam a formar um padrão, já não se trata mais de fatalidade. Trata-se de um sistema que falha em responsabilizar, de uma cultura que glamouriza excessos e de uma sociedade que ainda tolera demais quando quem erra tem dinheiro.
Porque, no fim das contas, não é o Porsche que mata. É a certeza de seu motorista de que nada vai lhe acontecer depois.