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Trump comete crimes de guerra no Irã e se regozija, diz New York Times

Donald Trump

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a defender de forma explícita ataques contra infraestrutura civil do Irã, incluindo usinas de energia, pontes, estradas, plantas de dessalinização e poços de petróleo.

Segundo a análise de Edward Wong, publicada no New York Times, é uma mudança significativa na forma como líderes americanos tratam publicamente as regras de guerra.

Essas estruturas formam a base da vida civil no país, e sua destruição provocaria sofrimento generalizado entre os cerca de 93 milhões de habitantes. Especialistas afirmam que ataques deliberados a esse tipo de alvo, na maioria dos casos, configuram crime de guerra, segundo o direito internacional.

Ainda assim, Trump tem insistido nesse tipo de ameaça. Em discurso recente, afirmou que pretende levar o Irã “de volta à Idade da Pedra, onde eles pertencem”. Em uma publicação durante o fim de semana da Páscoa, escreveu que “todo o inferno cairá” sobre os iranianos caso não cumpram suas exigências.

Em outra mensagem, foi ainda mais direto: “Terça-feira será o Dia das Usinas de Energia e o Dia das Pontes — tudo ao mesmo tempo — no Irã. Não haverá nada igual!!!”

Wong destaca que não se trata apenas de alvos com possível uso militar. O próprio presidente afirmou que atingiria “cada uma” das usinas de energia do país, “provavelmente de forma simultânea”. Após um ataque a uma ponte nas proximidades de Teerã, ele celebrou nas redes sociais: “Há muito mais por vir!”. Segundo autoridades iranianas citadas no texto, o bombardeio deixou ao menos 13 mortos e 95 feridos.

Especialistas em direito, historiadores e ex-integrantes do governo afirmam ao New York Times que nenhum presidente americano recente falou de forma tão aberta sobre ações que podem violar o direito internacional humanitário. Em conflitos anteriores, a prática oficial era afirmar respeito às normas internacionais, mesmo quando havia controvérsias sobre sua aplicação.

As regras que limitam a guerra estão previstas em acordos como as Convenções de Genebra, as Convenções de Haia, os Princípios de Nuremberg e a Carta das Nações Unidas. Esses instrumentos proíbem ataques deliberados contra civis e infraestrutura civil, além de práticas como o saque de recursos — possibilidade mencionada por Trump ao sugerir apropriação do petróleo iraniano .

No Irã, a destruição de infraestrutura tende a ampliar o sentimento antiamericano, inclusive entre setores que já criticavam o próprio regime. Segundo o especialista Karim Sadjadpour, da Fundação Carnegie, ataques dessa natureza reforçam a narrativa de que o país está sob ataque como nação, e não apenas seu governo.

No cenário internacional, a postura dos Estados Unidos pode enfraquecer ainda mais as normas que buscam limitar a violência em guerras, já pressionadas por conflitos recentes como a guerra da Rússia na Ucrânia e as operações militares em Gaza e no Líbano. Wong observa que a retórica americana sinaliza a outros países que essas regras podem ser ignoradas.

Postagens de Trump em sua rede Truth Social

O próprio Trump já demonstrou desprezo por esses limites. Em entrevista ao New York Times, afirmou: “Não preciso do direito internacional”. Questionado sobre restrições ao seu poder, respondeu: “Sim, há um: minha própria moral” .

O secretário de Defesa, Pete Hegseth, reforçou a linha dura ao afirmar que as forças americanas continuarão avançando “sem quartel, sem misericórdia para nossos inimigos”. Especialistas lembram que ordens desse tipo — como não dar quartel a combatentes rendidos — também configuram crime de guerra tanto pelo direito internacional quanto pela legislação militar dos EUA.

Ao mesmo tempo, o Pentágono não esclareceu se houve ou haverá ataques deliberados a alvos civis, apesar de questionamentos.

Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, forças americanas já atingiram mais de 12.300 alvos no Irã, com parte dos ataques resultando na morte de centenas de civis, incluindo quase 200 crianças em um único bombardeio, segundo dados citados na reportagem.

Em 4 de março, um submarino dos Estados Unidos torpedeou uma fragata do Irã nas proximidades do Sri Lanka, com cerca de 180 pessoas a bordo, escreve Wong. A embarcação retornava de exercícios militares realizados na Índia, dos quais os próprios Estados Unidos também haviam participado.

Após o ataque, os EUA solicitaram que o Sri Lanka conduzisse o resgate dos sobreviventes, sem realizar a operação diretamente. Segundo especialistas, essa conduta pode representar violação das Convenções de Genebra, que estabelecem obrigações claras em situações de combate envolvendo vítimas no mar.

O episódio foi mencionado pelo presidente Donald Trump em discurso, ao relatar uma conversa com militares sobre a decisão tomada. “Perguntei: ‘Por que não capturamos o navio? Poderíamos usá-lo.’ Eles responderam: ‘É mais divertido afundar.’ Eles preferem afundar. Dizem que é mais seguro. E, provavelmente, é verdade.”