
O historiador americano Timothy Snyder, professor da Universidade de Yale, especializado em história da Europa Central e Oriental, afirma que os Estados Unidos vivem um momento crítico que deve abrir caminho para uma tentativa de golpe de Estado liderada pelo presidente Donald Trump.
Em artigo publicado na plataforma Substack, ele aponta que a combinação entre guerra em andamento e a proximidade das eleições legislativas cria condições históricas para uma ruptura institucional.
Snyder escreve que o país está “a sete meses da eleição de meio de mandato mais importante da história dos Estados Unidos. Enquanto isso, estamos lutando uma guerra. Essas são as condições estruturais para uma tentativa de golpe na qual um presidente tenta anular eleições e tomar o poder permanente como ditador”.
A situação não é hipotética, mas um cenário concreto que exige atenção imediata.
Trump e o secretário de Defesa Pete Hegseth operam dentro de uma lógica de escalada, em que derrotas são respondidas com novas ofensivas. “Trump está cercado por pessoas que estão ganhando dinheiro com a guerra; cada dia de conflito fortalece um lobby belicista com acesso direto ao presidente”, afirma.
Quanto mais a guerra se prolonga, maior a chance de ser usada como instrumento político interno.
Snyder também afirma que o próprio Trump já sinalizou repetidamente sua intenção de interferir no processo eleitoral. “Ele declara regularmente sua intenção de interferir nas eleições”, escreve. Aliados do presidente apoiaram propostas que poderiam transformar eleições em uma formalidade sem efeito real, além de destacar a tentativa de ampliar o orçamento militar em quase 50% sem justificativa estratégica clara.
O artigo lembra que Trump já tentou um golpe anteriormente, em janeiro de 2021. “Não há razão para acreditar que ele não tentará fazer isso novamente”, diz. A diferença agora, segundo ele, é o contexto de guerra, que pode servir como justificativa para medidas excepcionais, incluindo a suspensão ou manipulação do processo eleitoral.
Para explicar como isso poderia ocorrer, há cinco cenários possíveis. No primeiro, o governo argumentaria que, em tempos de guerra, não se deve trocar a liderança, independentemente do resultado das eleições. No segundo, utilizaria o discurso de defesa da democracia no exterior para justificar restrições internas, uma estratégia historicamente associada ao bonapartismo.
Outro cenário envolve a tentativa de unificar o país por meio da guerra, à maneira do alemão Otto von Bismarck, enquanto um quarto modelo remete à lógica fascista de mobilização por meio do sacrifício em massa. O quinto cenário, considerado por Snyder como o mais provável, envolve a exploração de um ataque terrorista — real ou fabricado — para justificar estado de emergência e suspensão de eleições.
“Trump buscará explorar a guerra (ou a próxima) para alterar as eleições”, alerta ele. Há risco de manipulação de eventos para esse fim. Ele menciona inclusive a possibilidade de encenação de ataques como pretexto político, citando precedentes históricos como os atentados na Rússia em 1999.
Apesar do cenário descrito, Snyder afirma que o sucesso de uma tentativa desse tipo não é inevitável. “A posição de Trump é fraca”, declara, destacando que a concretização de um golpe depende da reação das instituições e da sociedade. Para ele, jornalistas, juízes, militares e cidadãos têm papel central na contenção de qualquer tentativa de ruptura.
O historiador conclui que não há espaço para neutralidade. A passividade diante de sinais claros pode facilitar o avanço de medidas autoritárias. O conhecimento histórico e a vigilância ativa podem impedir que esse tipo de processo se consolide.
“Quando pensamos nisso agora, em como isso pode tomar forma, tornamos esse cenário menos provável; na verdade, o dissuadimos. O conhecimento da história pode mudar o futuro. Se lembrarmos do que a história nos mostra ser possível, podemos impedir que um golpe tenha sucesso — e voltar qualquer tentativa desse tipo contra quem a promove”, diz.