
“Aperfeiçoa-te na arte de escutar. Só quem ouviu o rio pode ouvir o mar”.
Leão de Formosa, no poema “O Búzio e a Pérola”
Em janeiro de 2007, o grande jornalista e consultor de mídia Mário Rosa escreveu um livro sensacional: “A Era do Escândalo”. Tive a alegria de ser um dos entrevistados no capítulo sobre o Banco Marca.
Hoje são tantos os escândalos que vivemos, também, paradoxalmente, a era dos não escândalos!
A imprensa noticia que o Lulinha voou, em 2025, em um avião de uma pessoa que foi seu advogado tributarista, numa viagem de Brasília para SP. E que esse advogado foi o segundo maior doador de campanha para o Tarcísio, quando candidato a governador de SP.
Vamos aos fatos. O advogado do Lulinha tem dois aviões e deu uma carona ao Lulinha. Não há nada que insinue, sequer remotamente, qualquer irregularidade. Ele foi advogado do Lulinha. Mesmo se não tivesse sido — mas foi. Ele, óbvio, dá carona para quem quiser, e não existe absolutamente nada que impeça o Lulinha de aceitar uma carona de seu advogado.
Penso que é difícil imaginar que possa haver insinuação sobre o fato de o advogado ser bolsonarista e apoiador — é o maior doador na campanha do candidato da direita em SP — e voar com o Lulinha. Alguém imagina o Lulinha apoiando Bolsonaro e Tarcísio? Nem nas manchetes de escândalo mais ousadas.

É o não escândalo que, ao ocupar as primeiras páginas dos jornais, os blogs, as chamadas nas TVs, resulta numa dúvida neste momento de mídia 24 horas e rápida, em que quase ninguém lê: “Você viu o Lulinha em um avião emprestado. Escândalo.”
Esta tem sido uma regra. Se alguém jantou, voou de avião, consta na lista de telefones, foi visto conversando com o Vorcaro em qualquer lugar, já vira manchete com ares de dúvida — mesmo que não exista, sequer an passant, qualquer fiapo de irregularidade. Na dúvida, fica cravado o “furo”.
Antigamente se dizia que matéria era quando o rabo mordia o cachorro. Hoje é escândalo quando o cachorro morde o rabo.