
Horas após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, o governo iraniano passou a apresentar a trégua como uma vitória política e militar, em uma disputa de narrativa que também mobiliza Donald Trump e autoridades de Washington. Em meio às incertezas sobre a aplicação do acordo no terreno, Teerã tenta consolidar a ideia de que impôs suas condições ao adversário, enquanto os Estados Unidos sustentam que saíram do confronto com “vitória total”.
A reação iraniana foi imediata. O primeiro vice-presidente do país, Mohammad Reza Aref, afirmou nas redes sociais que “a era do Irã” começou, sugerindo um novo momento de força geopolítica para Teerã. Na mesma linha, o chefe do Judiciário, Mohsen Ejei, declarou que o país “provou ser inflexível e invencível”.
Já o Conselho Supremo de Segurança Nacional foi ainda mais duro ao afirmar, em comunicado oficial, que o Irã impôs ao inimigo uma “derrota inegável, histórica e esmagadora” em uma guerra classificada como “covarde, ilegal e criminosa”. O órgão também declarou que o país “alcançou uma grande vitória e forçou a criminosa América a aceitar sua própria proposta de 10 pontos”.
Segundo o comunicado, Washington teria aceitado uma proposta iraniana que inclui cessar-fogo permanente, retirada de forças de combate estadunidenses da região, suspensão de sanções e manutenção do controle iraniano sobre o Estreito de Ormuz.
Iranians keep flooding the streets across the country despite Trump’s genocidal threats against the entire Iranian nation.
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— Press TV 🔻 (@PressTV) April 7, 2026
O texto ainda afirma que, após perceber que não venceria a guerra, o inimigo passou a buscar contato com Teerã e pedir uma trégua. A versão oficial do Irã sustenta que “não apenas nenhum dos principais objetivos do inimigo se concretizou, como o inimigo percebeu, cerca de 10 dias após o início da guerra, que não teria capacidade de vencê-la”.
Do lado estadunidense, Trump adota tom semelhante. Em entrevista à AFP, afirmou que os Estados Unidos conquistaram “vitória total e completa”. “Vitória total e completa, 100%. Não há dúvidas sobre isso”, disse.
O presidente também declarou que a questão nuclear iraniana estaria resolvida. “Isso estará perfeitamente controlado, ou eu não teria fechado um acordo”, afirmou, sem explicar quais mecanismos garantiriam essa fiscalização.
Apesar da retórica triunfal dos dois lados, o cessar-fogo ainda convive com sinais de fragilidade. Relatos de novos ataques com mísseis e drones no Golfo Pérsico colocaram em dúvida a efetividade imediata da trégua. Sirenes voltaram a soar em Israel, enquanto Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos registraram novos episódios de violência.
Além disso, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o cessar-fogo não se estende ao Líbano, onde os confrontos com o Hezbollah continuam.
Nas ruas, o impacto humano da guerra pesa mais do que a disputa por versões. Segundo dados citados no texto, ao menos 1.665 civis morreram no Irã, incluindo 244 crianças. Em Teerã, o sentimento é descrito como de alívio cauteloso. “A noite passada foi realmente assustadora”, disse ao The New York Times um morador identificado como Nima.
Já o correspondente Ali Hashem, da Al Jazeera, resumiu o clima da população: “As pessoas estão felizes por poderem retomar suas vidas normais, mas temem que isso possa se repetir a qualquer momento”.