Logo DCM
Logo DCM
Apoie o DCM

Cessar-fogo não desfaz lambança americana. Por Olímpio Cruz Neto

Donald Trump, presidente dos EUA. Foto: Reuters

Por Olímpio Cruz Neto

O mercado financeiro é, por definição, míope. Hoje, as telas de Londres e Nova York celebram a “paz de papel”. Ontem, o Brent despencou 13,7%, fechando a US$ 94,29, enquanto o petróleo de Omã seguiu a mesma trajetória de queda após o anúncio de um cessar-fogo de apenas 14 dias. A euforia dos algoritmos, no entanto, ignora a física dos escombros.

A reabertura do Estreito de Ormuz é uma vitória de Pirro da Casa Branca. Na verdade, Donald Trump perdeu. O que o presidente dos EUA e o gabinete de guerra de Binyamin Netanyahu não mencionam é simples: petróleo bruto não move caminhão, não decola avião e não planta soja.

A ofensiva americana e israelense, baseada em força bruta e retórica incendiária, conseguiu a proeza de “liberar” uma artéria enquanto o coração do sistema energético — as refinarias, plantas de gás e terminais — permanece em parada cardíaca. O colapso energético continua. O capital físico não aceita decretos, ultimatos nem comemorações prematuras.

O erro de Trump é material. Durante cinco semanas de fúria bélica, o capital físico do Golfo Pérsico foi estraçalhado. O complexo petroquímico de South Pars, no Irã, e diversas outras instalações de refino e processamento na região — no Qatar, Bahrein, Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos — sofreram danos estruturais em ataques com mísseis e drones que nenhum aperto de mão mediado pelo Paquistão reconstrói em duas semanas.

Estamos diante de um sistema energético mutilado. Reabrir Ormuz permite que o óleo bruto volte a circular, mas o Brasil e o mundo não consomem óleo bruto. O que move a economia real é diesel, querosene de aviação e fertilizantes produzidos a partir de cadeias industriais que agora estão feridas. A capacidade global de refino, que já operava no limite, enfrenta um vazio de oferta que levará meses para ser preenchido.

Trump cercado de militares dos EUA

A operação da Casa Branca conseguiu apenas acelerar o declínio da autoridade americana e explicitar a derrota estratégica de Trump. Ele não reorganizou o tabuleiro. Apenas atirou a caixa do jogo no chão.

A lambança americana custou bilhões de dólares ao contribuinte dos EUA para, ao fim, entregar um status quo degradado. Trump recuou da ameaça de “varrer o Irã do mapa” para aceitar uma trégua frágil de 14 dias. É um atestado de falência da capacidade americana de garantir ordem internacional. A Casa Branca demonstrou que ainda pode destruir a infraestrutura alheia, mas já não consegue proteger de forma estável o fluxo vital que sustenta o Ocidente.

Para o Brasil, o perigo é a anestesia provocada pela queda momentânea dos preços de tela. Seria um erro crasso celebrar o fim da crise. O Brasil importa cerca de 30% do diesel que consome e depende fortemente de fertilizantes externos. A ureia não vai baratear amanhã porque as plantas petroquímicas do Golfo continuam fisicamente danificadas. Além disso, o prêmio de risco logístico seguirá elevado: que seguradora marítima reduzirá suas taxas sabendo que a trégua de Trump tem prazo de validade de duas semanas?

A guerra mudou de fase, mas sua herança material continua sangrando. No Brasil, com refinarias operando a 98,5% da capacidade e sinais de aperto no abastecimento, o otimismo é temerário.

Ormuz reaberto significa apenas que o corpo voltou a circular sem recuperar seus órgãos vitais. O organismo segue gravemente ferido. Trump amarga uma derrota estratégica: acelerou a erosão da autoridade americana ao mostrar que os EUA se tornaram mais um agente do caos, incapaz de assegurar a infraestrutura que move o mundo moderno. O erro agora seria celebrar cedo demais. O pânico pode ter diminuído. A fragilidade, não.

Ainda estamos em apuros.