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Às favas com os escrúpulos: Os 500 mil da Netflix para Suzane von Richthofen. Por Leonardo Mendes

Suzane Von Richthofen, rindo, em documentário da Netflix.
A assassina dos próprios pais, Suzane Von Richthofen, em documentário da Netflix. Foto: Reprodução/Netflix

A Netflix pagou R$500 mil para Suzane von Richthofen gravar um documentário sobre a sua intimidade, segundo informações da coluna Outro Canal, da Folha.

Eis a fase atual do capitalismo, em que absolutamente tudo se transforma em mercadoria para o consumo e o lucro é o único parâmetro de sucesso ou fracasso. Por que não se associar a uma condenada pelo assassinato dos próprios pais e enriquecê-la?

Se não há legislação aplicável que impeça, se as projeções de mercado apontam para o lucro, qual o problema?

É a mesma lógica que Trump explicita sem cerimônia ao declarar que faz o que faz pelo petróleo. Às favas com os escrúpulos.

Bernard Williams definiu a ética como um sistema para regular as relações sociais que funciona através de disposições internalizadas e sanções informais. Em palavras mais simples, trata-se de ter vergonha na cara. É ela que nos impede de fazer certas coisas, independente de leis formais e punições estabelecidas, que nos limitam pelo medo.

O filósofo inglês, Bernard Williams.
O filósofo inglês, Bernard Williams. Foto: Roger Jackson/Central Press/Getty Images

A ética forma nossas identidades e, por consequência, nos constrange a agir de maneira coerente com o que queremos ser. Se queremos ser um bom pai, um bom amigo, um bom cidadão, exigimos de nós mesmos comportamentos que condizem com essa autoimagem — sob pena de não nos reconhecermos naquilo que fazemos. Ou então apenas colocamos a culpa nas nossas fraquezas, pedimos perdão a alguma entidade superior, e esperamos ser perdoados.

O que nos afasta da ética, e aproxima da dinâmica do medo da punição, seja ela oriunda de dispositivos jurídico-estatais ou da ira divina.

Grandes corporações como a Netflix não cultivam a ética, e seria ingenuidade esperar o contrário. Elas operam nos limites do juridicamente permitido e das projeções de lucro. Por isso leis são necessárias para regulamentar a atividade dessas empresas e para que o interesse social se sobreponha à lógica de mercado. Na ausência delas, o caminho está aberto.

O próximo passo pode ser um reality show só com condenados por homicídio, arrependidos dos seus pecados, convertidos pelo evangelismo neopentecostal, com pastor apresentador e R$500 mil para o mais convincente.