
Existem duas maneiras de interpretar a nova pesquisa Datafolha divulgada hoje. A primeira é se impressionar com a direita. A segunda é se impressionar com a esquerda. Mesmo com toda a máquina de propaganda conservadora — com rádios, TVs, portais e influenciadores nadando em dinheiro dos grandes empresários —, um setor da sociedade permanece mobilizado em defesa de princípios de justiça social, igualdade, soberania e direitos democráticos.
É difícil explicar essa resiliência — de Lula e de toda a esquerda — diante de décadas de ataques, manipulações e profecias de aniquilamento.
Como dizia João Cabral de Melo Neto: “É difícil defender, só com palavras, a vida.”
Quem são esses 70 milhões de brasileiros que apoiam Lula hoje no segundo turno?
São as famílias de baixa renda espalhadas pelo Brasil inteiro.
São as mulheres, numa vantagem que sempre foi impressionante e que reflete um processo real de empoderamento.
É a classe média cosmopolita e progressista das grandes cidades, que também partilha o sonho de um Brasil soberano, independente e desenvolvido.
São os brasileiros mais velhos, que têm memória: lembram de FHC, Collor, ditadura. O aumento da longevidade no Brasil, a propósito, beneficiou Lula — há mais gente com sessenta anos hoje do que havia antes, e essa geração acumulou experiência suficiente para saber o que não quer de volta.
Os números confirmam essa força. Lula aparece com 26% na pesquisa espontânea — cerca de 40 milhões de pessoas que têm o seu nome na cabeça agora, sem ninguém sugerir. No primeiro turno, chega a 39%, o equivalente a mais de 60 milhões de eleitores. E no segundo turno, 45% — os 70 milhões que seguram a onda da esquerda contra Flávio Bolsonaro, que aparece com 46%.

É com esses 70 milhões — e com a máquina na mão — que se ganha o jogo. Mas a máquina só funciona se você entender que o tempo é relativo. Como dizia Einstein, ele se comprime conforme a pressão da gravidade. Numa eleição, a gravidade é total: seis meses podem conter 20 anos de história. É o momento de projetar as próximas décadas.
Esperemos, todavia, que o governo consiga fugir da armadilha politiqueira e antipática de cobrar gratidão. É maravilhoso lembrar dos hospitais, estradas e programas criados pelo governo. Mas o povo sempre pode rebater com o que não foi criado. Além disso, não é inteligente tratar o povo como se ele fosse portador de uma dívida política.
O voto não é um pagamento por serviços prestados — é sobretudo uma aposta no futuro. O modelo de comunicação baseado unicamente em inaugurações de obras locais está repetitivo e não aponta horizontes para as grandes realizações que o país espera.
Lula não pode se restringir a mobilizar a atenção de pequenos nichos. Ele tem que liderar um projeto de transformação nacional.
O governo deveria, além disso, desenvolver uma imagem um pouco mais independente e autônoma em relação à figura de Lula. O país precisa de um grande projeto de mobilidade sobre trilhos e de um grande projeto de universalização da energia solar, com bateria inclusa — solar de dia, energia armazenada de noite.
As empresas elétricas vão reclamar. Paciência. O povo precisa de energia barata, e a China já tem essa tecnologia pronta. O plano é simples: imposto zero para importar placa e bateria da China, trazer tudo para cá e mandar nossos estudantes para lá. Eles aprendem engenharia solar na prática e voltam para montar fábrica aqui. Porque hoje, no Brasil, ninguém domina isso.
Lula não gosta de trem, e esse é o erro que pode custar a eleição. O povo passa quatro horas por dia espremido em ônibus. O dia em que a esquerda defender o trem e a ferrovia nacional, ela quebra o preconceito de quem acha que o PT só olha para o passado. O trem é o símbolo do futuro que o eleitor quer conquistar.
Energia solar, trem, e um sonho nacional de desenvolvimento.
É assim que a frente ampla democrática pode sair dos 45% e vencer.

