Logo DCM
Logo DCM
Apoie o DCM

Chiqueiro e algoritmo: territórios que não nos pertencem. Por Edward Magro

Programação de algoritmo. Foto: ilustração

Tomar a temperatura das redes sociais como medida da vitalidade política tem induzido as análises do campo progressista a erros persistentes. À primeira vista, pode parecer apenas a escolha de um termômetro inadequado; observado com maior atenção, porém, o problema revela uma dimensão mais profunda e já bastante sedimentada. Não se trata apenas de medir mal, mas de depender de um instrumento cujos critérios de funcionamento escapam ao próprio observador. Quando um campo político passa a orientar sua leitura da realidade por indicadores que não domina — e, sobretudo, que não controla —, o risco deixa de ser conjuntural para adquirir caráter estrutural. Uma parcela relevante das análises à esquerda acaba, assim, atravessada por esse viés limitador. Diagnóstico errado leva à solução errada. É nesse registro, silenciosamente discreto e persistente, que se situa, a meu ver, o ponto sensível da esquerda brasileira diante do horizonte de 2026.

Se tomarmos como referência critérios amplamente aceitos até a consolidação das redes sociais como instância central de mediação, os dados econômicos recentes mostram-se, por qualquer avaliação minimamente rigorosa, favoráveis ao governo Lula. Crescimento consistente, melhora em indicadores sociais, recuperação do emprego formal e reposicionamento internacional do país compõem um quadro que, em circunstâncias ordinárias, sustentaria níveis mais elevados de reconhecimento público. Ainda assim, a aprovação permanece aquém do esperado, e a sensação de disputa acirrada persiste. A pergunta, portanto, exige resposta sóbria: por que um governo com fundamentos sólidos continua submetido a pressão constante?

A explicação mais confortável — e, por isso mesmo, menos exigente do ponto de vista analítico — atribui esse desconforto à suposta força orgânica do bolsonarismo. Essa leitura, embora difundida, simplifica um arranjo mais amplo e articulado. A energia política que se manifesta no presente não se concentra em um grupo ou liderança específicos, mas resulta da convergência entre a extrema-direita associada a setores financeiros, frações do agronegócio e segmentos religiosos de orientação transnacional; a direita radical institucionalizada no centrão; e uma direita liberal de aparência moderada, herdeira de um tecnocratismo persistente. Nesse contexto, as figuras mais ruidosas ocupam um papel secundário: contribuem para a dispersão e a dramatização do debate, mas não constituem o núcleo efetivo de poder.

O que confere coesão a esse bloco é algo menos visível e mais eficaz: a adesão a um projeto de reorganização global que desloca o eixo de poder do território físico para a arquitetura digital. A leitura proposta por Yanis Varoufakis, ao descrever a transição para formas de tecnofeudalismo, oferece uma chave interpretativa poderosa. Nesse modelo, a mediação política tradicional é progressivamente substituída por plataformas privadas que concentram infraestrutura, dados e capacidade de modulação do debate público. O Estado não desaparece; passa a ser contornado.

É nesse ambiente que as redes sociais deixam de ser simples ferramentas de comunicação e passam a operar como dispositivos de ordenamento simbólico. Não se trata apenas da circulação de opiniões, mas de uma hierarquização invisível de valores sociais e políticos. Nesse novo arranjo, a mídia tradicional, longe de sucumbir, adaptou-se ao ecossistema ao assumir o papel de fornecedora contínua de narrativas — muitas vezes imprecisas, por vezes enviesadas, com frequência orientadas contra determinados grupos de interesse — que alimentam circuitos digitais de amplificação. O fenômeno não se limita a um contexto nacional; possui alcance transnacional.

Embora penoso para os nossos instintos mais primitivos, convém afastar uma tentação recorrente: personalizar o problema. Figuras públicas mais estridentes raramente sustentam relevância fora de seus círculos imediatos. O mecanismo que as projeta é de outra ordem. As redes amplificam aquilo que converge com seus interesses estruturais — e tais interesses estão longe de qualquer neutralidade. Respondem a modelos de negócio ancorados em engajamento, polarização e retenção prolongada do usuário. O conteúdo que melhor se ajusta a essa lógica passa a circular com intensidade desproporcional, não por mérito intrínseco, mas por aderência funcional ao sistema. Não há mistério, tampouco conspiração rudimentar. Há desenho de sistema, há modelo de negócio em plena execução. É business as usual.

O presidente Lula

Esse desenho tem proprietários bem definidos. Grandes conglomerados tecnológicos operam em escala transnacional com objetivos que ultrapassam, com folga, a simples prestação de serviços. A noção de um espaço público digital autônomo, aberto e equitativo revela-se, nesse contexto, uma ficção conveniente, uma espécie de quimera cuidadosamente preservada. O que se impõe, na prática, é um território privado, regido por regras opacas, no qual a circulação de ideias é mediada por algoritmos cujo funcionamento permanece, à semelhança da fórmula da Coca-Cola, fora do alcance do escrutínio público. O bloqueio de perspectivas dissidentes não se dá apenas por expedientes visíveis, como a suspensão de contas ou a remoção de conteúdos. O mecanismo decisivo é mais sutil: a redução silenciosa de alcance, a invisibilização progressiva, a asfixia pela ausência de distribuição.

Diante desse cenário, a decisão da esquerda de investir energia militante na disputa por espaço dentro dessas plataformas revela-se um erro continuado. Aceitou-se lutar com porco no chiqueiro. E, como a experiência ensina, nesse tipo de embate não apenas se perde; também se sai marcado, muitas vezes irreconhecível. A tentativa de transportar para o ambiente digital práticas e expectativas oriundas da política territorial — como se fosse possível a distribuição equitativa dos espaços digitais — desconsiderou a natureza proprietária e profundamente assimétrica desse domínio. Não existe reforma agrária na ciberesfera. Não há como criar um Movimento dos Sem Ciber-Terras.

O efeito mais danoso dessa escolha equivocada manifestou-se em duas frentes complementares. De um lado, uma parcela expressiva do campo progressista passou a operar segundo códigos alheios, ajustando linguagem, ritmo e até mesmo prioridades para atender às exigências de visibilidade impostas pelas plataformas. De outro, indivíduos e coletivos que ingressaram nesse ambiente com propósitos políticos acabaram sendo, em alguma medida, reconfigurados por ele. As redes não apenas hospedam discursos; elas os moldam. E, nesse processo, muitos quadros foram, pouco a pouco, absorvidos por dinâmicas que favorecem a simplificação, a radicalização superficial e a fragmentação.

Persistir nessa estratégia, à luz da evidência já acumulada, equivale a reiterar o erro de origem. E a repetição de um erro, em política, raramente permanece sem consequências ampliadas. Caso esse diagnóstico não seja assumido com a devida nitidez, a formulação de respostas para 2026 tenderá a se apoiar em premissas frágeis. Diagnóstico errado leva à solução errada, e soluções mal formuladas, sobretudo em contextos adversos, costumam impor custos elevados.

Isso não implica abandonar o espaço digital, mas redefinir com clareza a sua função. Em vez de tratá-lo como arena principal de disputa, talvez seja mais prudente reconhecê-lo como campo auxiliar, um puxadinho da estratégia de luta, submetido a limites bem definidos. A reconstrução de vínculos sociais densos, ancorados em territórios concretos, instituições e experiências compartilhadas, precisa recuperar sua centralidade. A política, afinal, não se reduz ao fluxo de informações. Ela se enraíza em relações, expectativas e materialidades que nenhuma plataforma é capaz de substituir por completo.

A tarefa que se apresenta está longe de ser simples. Exige revisão de práticas, investimento em formas organizativas menos dependentes de mediações digitais, suor no rosto, solas gastas e, sobretudo, disposição para reconhecer equívocos sem subterfúgios. Esse movimento requer também a capacidade de admitir que, em determinadas circunstâncias, há uma elegância própria em saber recuar no momento oportuno.

Penso — e aqui não há qualquer pretensão de vaticínio, menos ainda de cagar regra — que, se a esquerda brasileira pretende disputar 2026 com boa margem de êxito, será necessário abandonar a ilusão de que visibilidade algorítmica equivale à presença política. Trata-se de esferas distintas. Confundi-las foi, até aqui, um grande equívoco. Corrigi-lo é condição indispensável para qualquer estratégia que aspire a algo mais do que a mera sobrevivência.