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Como novo bloqueio do Estreito de Ormuz volta a pressionar preços dos combustíveis no Brasil

Caminhão sendo abastecido com diesel. Foto: Marcelo Theobald/Agência O Globo

O bloqueio do Estreito de Ormuz pelos Estados Unidos nesta segunda-feira (13) acendeu um novo alerta no mercado financeiro e passou a pressionar as projeções para o preço do petróleo, com reflexos potenciais sobre combustíveis e inflação no Brasil. Considerada uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo, a região ganhou peso ainda maior nas análises depois que a tensão entre Washington e Teerã deixou de ser tratada como risco periférico e passou a influenciar diretamente a formação de preços globais.

Especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que, embora não haja sinal de desabastecimento de combustíveis no Brasil, a alta do petróleo no mercado internacional já começou a produzir efeitos sobre a economia doméstica.

A CEO da Magno Investimentos, Olívia Flôres de Brás, afirma que o mercado abandonou o cenário de normalidade que vinha sendo projetado para o Brent ao longo de 2026. “Como uma parcela relevante do petróleo global passa por essa região que, agora, está sob risco, o mercado passa a lidar com maior incerteza sobre oferta, o que se traduz em juros mais pressionados”, disse.

Segundo ela, a referência internacional do petróleo vinha sendo estimada entre US$ 75 e US$ 85 neste ano, em um ambiente de crescimento moderado, oferta ajustada e ausência de grandes rupturas. Esse cenário, porém, mudou com o agravamento da crise. “O Brent vinha sendo projetado entre US$ 75 e US$ 85 ao longo de 2026. Esse era o cenário de normalidade: crescimento moderado, oferta ajustada e sem grandes rupturas. Mas esse cenário não existe mais”, afirmou.

Em seguida, resume a nova lógica do mercado: “Com o aumento da tensão envolvendo Irã e o Estreito de Ormuz, o mercado passa a precificar a possibilidade de interrupção. Quando o risco entra, o preço sobe antes do problema acontecer. Hoje, as revisões já começam a apontar para um intervalo mais próximo de US$ 85 a US$ 95 neste ano”.

Estreito de Ormuz visto por satélite. Foto: Reprodução

No Brasil, o efeito já aparece nos índices de preços. O economista-chefe da MAG Investimentos, Felipe Oliveira, avalia que o país não deve enfrentar falta de combustíveis, mas conviverá com petróleo caro por mais tempo. “Entendemos que não haverá desabastecimento, mas, conforme mostram os preços atuais, cresce a expectativa de um petróleo mais caro por mais tempo”, afirmou.

Ele também destacou o impacto inflacionário já em curso: “O IPCA já mostrou impacto da guerra, especialmente com o aumento dos preços dos combustíveis. Esse efeito tende a se intensificar se o conflito perdurar, devido ao impacto indireto da alta do diesel sobre a cadeia de distribuição no Brasil”.

Os dados mais recentes do IBGE reforçam essa avaliação. A inflação de março subiu 0,88%, acima do esperado pelo mercado, puxada principalmente pelo grupo Transportes, que avançou 1,64%, com alta de 4,59% nos combustíveis. “A combinação entre restrições de oferta no mercado internacional e repasses domésticos acabou se refletindo nos preços ao consumidor e já aparece nos dados da inflação de março”, disse o gerente do IPCA do IBGE, Fernando Gonçalves.

Para Olívia Flôres de Brás, o impacto sobre o bolso do consumidor dependerá menos das oscilações diárias e mais da duração da crise. “Se o petróleo sobe em um dia, nada acontece. Se permanece alto, tudo muda”, disse.

“No curto prazo, pode haver estabilidade, com ajustes contidos e comunicação mais cautelosa. Já no médio prazo, entre um e três meses, o repasse começa a aparecer, primeiro de forma parcial e depois de maneira mais direta. No longo prazo, o repasse é inevitável, seja via preço na bomba ou via inflação”.