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Esposa, filho e cunhado: Tarcísio monta cabide de emprego para sua família por onde passa

Para Tarcísio de Freitas, a (sua) família sempre vem em primeiro lugar (crédito: reprodução)

O governador de São Paulo e ex-ministro da Infraestrura do governo Bolsonaro, Tarcísio de Freitas (Republicanos), obteve empregos públicos para seus familiares e praticou nepotismo cruzado com aliado político tanto no poder Executivo paulista quanto no governo federal, onde esteve de 1º de janeiro de 2019 a 31 de março de 2022.

A primeira vaga garantida foi para Matheus Ferreira de Freitas, filho mais velho de Tarcísio, que foi estagiário do Ministério da Economia (atual Ministério da Fazenda) de março de 2020 a fevereiro de 2022, durante a gestão de Paulo Guedes.

Ao ingressar no órgão público, o filho do então ministro tinha 21 anos, e acumulou a função com a de consultor do Grupo Gestão, ligado à UnB, a universidade que Matheus apenas começava a frequentar, no curso de engenharia de produção. O próprio jovem faz questão de incluir essa experiência profissional em seu currículo na internet, como se vê abaixo.

Filho de Tarcísio obteve emprego público no então chamado Ministério da Economia enquanto o pai era o titular da pasta de Infraestrutura (fonte: reprodução)

O DCM obteve, por meio da Lei de Acesso à Informação, junto ao Ministério da Fazenda (antes chamado de Ministério da Economia), os dados a respeito da contratação do filho do governador:

“Segundo dados do Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos (SIAPE) do Governo Federal, Matheus Ferreira de Freitas participou de programa de estágio sob a supervisão da Coordenação-Geral de Fortalecimento Institucional da Diretoria de Gestão Estratégica (CGFOR/DGE) do extinto Ministério da Economia, de 11/03/2020 a 11/03/2022.

O programa de estágio curricular não obrigatório previa jornada de 30 horas semanais. A bolsa estágio era paga no valor mensal de R$ 1.125.

As atividades desenvolvidas pelo estagiário, conforme Plano de Atividades formalizado no ato de contratação eram:

• Acessar arquivos diversos e auxiliar na execução de rotinas na área;
• Auxiliar na análise de relatórios gerenciais;
• Auxiliar na criação de processos de produção;
• Auxiliar na criação e desenvolvimento de projetos; e
• Auxiliar na elaboração de documentos técnicos.”

Assim que o pai deixou o governo federal, Matheus trocou o cargo público por outro em uma instituição privada: o banco BTG Pactual, de André Esteves. A notícia foi divulgada, à época, pelo site “O Bastidor”, do jornalista Diego Escosteguy, em agosto de 2024, mas a imprensa não repercutiu. Com a falta de interesse dos jornalistas pelo tema, tanto o banco quanto o governo do Estado preferiram não negar nem admitir, optando por dizer se tratar de um “assunto da vida privada do filho do governador”.

Contratação do filho de Tarcísio pelo banco BTG se deu logo após Tarcísio sair do governo federal para concorrer ao governo paulista (crédito: reprodução)

Um ano depois, o jornalista Joaquim de Carvalho, do Brasil 247, voltou ao tema, e conseguiu uma admissão do governo estadual, por meio de nota, que novamente a imprensa não repercutiu. Para Tarcísio, não havia quaisquer irregularidades na contratação, inclusive ética:

“A contratação do profissional (filho do governador) em questão deveu-se única e exclusivamente a sua competência profissional, inexistindo quaisquer irregularidades, inclusive ética”.

Esposa tinha salário de mais de R$ 18 mil

Quem também ganhou cargo no governo Bolsonaro enquanto Tarcísio era ministro foi sua esposa. De setembro de 2020 a, pelo menos, abril de 2022, Cristiane Ferreira da Silva Freitas ocupou o posto de coordenadora de Integridade e Integração da Embratur, com um salário de R$ 18.375,37.

Ela era subordinada à gerente Catiane dos Santos Monteiro Seif que, por sua vez, é casada com o então secretário de Pesca do governo federal e atual senador pelo PL-SC, Jorge Seif. Catiane recebia um salário de R$ 25.767,50.

Na foto acima, da família de Tarcísio, apenas a menina Letícia e os cachorros não tiveram cargo no governo Bolsonaro (crédito: reprodução)

 

O cunhado, o deputado-assessor e o assassinato em Paraisópolis durante a campanha de Tarcísio

Já como governador do estado, Tarcísio contratou o seu cunhado, o militar da reserva Mauricio Pozzobon Martins, casado com a irmã de sua esposa, para o cargo de “assessor especial do governador 2”, com salário de R$ 21.017,85 ao mês.

A contratação se deu assim que o governador colocou os pés no Palácio dos Bandeirantes, tendo sido publicada no Diário Oficial do Estado em 11 de janeiro de 2023. Na mesma oportunidade, de uma tacada só, Tarcísio aproveitou para contratar o irmão de Michelle Bolsonaro Diego Torres Dourado para o posto de “assessor especial do governador 1”, com ganhos mensais de R$ 19.204,22.

Assim que chegou ao governo de SP, Tarcísio começou a contratar parentes (crédito: O Globo)

O episódio teve péssima repercussão para o governador junto à opinião pública, o que fez com que ele voltasse atrás na contratação de seu cunhado (mas mantendo o de Bolsonaro no cargo) já no dia seguinte.

Isso não quer dizer, porém, que Tarcísio deixaria o familiar desassistido, até porque jamais o tinha feito até então: Martins foi para a reserva do Exército em 2019. Desta data até junho de 2021, o militar atuou na Infraero, órgão vinculado ao Ministério da Infraestrutura, que era comandado por Tarcísio.

Assim, ainda no primeiro ano de seu mandato, em maio de 2023, o cunhado foi empossado como membro do comitê de auditoria da Desenvolve SP, agência de fomento paulista, com salário de R$ 14,5 mil.

De lá saiu só em agosto de 2024, quando foi contratado como assessor especial parlamentar no gabinete do deputado estadual Danilo Campetti (Republicanos), com salário mensal de R$ 20.535,08.

O cunhado de Tarcísio e o deputado que o contratou já se conheciam. Ambos haviam prestado serviços à campanha do governador.

O primeiro, formalmente, tendo recebido R$ 60 mil a título de “serviços de administração financeira”. Quer dizer, já no período de campanha eleitoral, antes mesmo assumir o Palácio dos Bandeirantes, Tarcísio já estava usando dinheiro público (do fundo partidário) para contratar um parente.

Tarcísio empregou seu cunhado na campanha eleitoral de 2022 (crédito TSE)

Este cunhado é a mesma pessoa de quem também alugou um imóvel em São José dos Campos, no interior de São Paulo, por valor inferior ao de mercado, para que servisse como sua “residência” em São Paulo, para que pudesse afirmar ser “morador” do estado e concorrer ao governo.

Já o deputado estadual Danilo Campetti colaborou apenas informalmente para a campanha de Tarcísio. Isso porque ele mesmo concorria a uma vaga na Assembleia Legislativa, mas não veio a ser eleito, tendo ficado na suplência.

Isso não quer dizer que o governador iria deixar o colaborador voluntário sem um cargo público, até porque jamais o tinha feito. Policial federal licenciado, antes de concorrer à vaga de deputado, Campetti era assessor especial no… Ministério da Infraestrutura, então sob o comando de Tarcísio.

Ausente nas contas declaradas da campanha de Tarcísio, Danilo Campetti foi colaborador assíduo do então candidato, servindo em sua equipe de segurança particular, embora fizesse uso de arma da Polícia Federal.

(crédito: reprodução)

Campetti passaria despercebido se não tivesse sacado sua pistola Glock no episódio em que um homem foi morto por agentes de segurança em uma agenda de campanha de Tarcísio na favela de Paraisópolis, na capital paulista, em 17 de outubro de 2022.

(Crédito: reprodução)

O que nunca foi revelado é que Danilo admitiu à Polícia Civil do Estado de São Paulo que usava arma da Polícia Federal enquanto fazia segurança particular para Tarcísio, o que é ilegal.

A informação consta noo relatório final do inquérito instaurado na 1ª Delegacia de Homicídios da capital, onde se lê:

“Esclareceu que estava armado com sua pistola Glock, modelo G17, 9mm, carga da Polícia Federal, entretanto não efetuou qualquer disparo de arma de fogo”. Veja trecho abaixo.

(crédito: Polícia Civil de SP)

A Polícia Civil de São Paulo conduziu todo o inquérito enquanto Tarcísio já era o governador, e terminou por arquivar o caso sem apontar qualquer culpado pela morte de Felipe da Silva Lima. Ele teria sido morto por engajar-se em tiroteio com policiais militares que estavam no local.

Foi legítima defesa do policial, segundo a Polícia Civil de São Paulo, muito embora o relatório da perícia criminal sobre caso tenha demonstrado que a vítima foi morta com um tiro nas costas, conforme se lê no próprio relatório que arquivou o caso, na página 446:

(crédito: Polícia Civil de SP)

De qualquer forma, voltando a Danilo Campetti, o policial federal licenciado, candidato a deputado estadual em 2022 ao mesmo tempo em que fazia segurança de Tarcísio usando arma da PF, ele não foi eleito, mas ficou na suplência, e Tarcísio não o deixaria desassistido.

Tarcísio buscou abrigar Campetti em cargos públicos e chegou a nomeá-lo seu assessor no governo paulista, mas a Polícia Federal reivindicou o policial de volta para seus quadros em junho de 2023.
Desde então, o governador se empenhou em articulações para emplacar um deputado estadual do Republicanos em outros cargos e, assim, ajudar Campetti a assumir seu mandato, o que só se concretizou um ano depois.
Segundo suplente do Republicanos, Campetti assumiu o mandato em junho, após articulação de Tarcísio para abrir a vaga ao aliado na Assembleia.

Primeiro, ele nomeou a primeira suplente do Republicanos, Coronel Helena Reis, como secretária de Esportes de seu governo.

Depois, articulou com o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que nomeou o deputado estadual Rui Alves (Republicanos) na Secretaria Municipal de Turismo.

Campetti, então, assumiu o gabinete de Rui Alves e manteve a equipe do antecessor. Entre as poucas novas contratações do seu mandato, está a de Martins, cunhado do governador.

A caracterização do nepotismo cruzado entre o governador e o deputado

Campetti, na realidade, estava apenas devolvendo um favor a Tarcísio, outra informação ainda não revelada pela imprensa e que prova a ocorrência da prática de nepotismo cruzado: durante a campanha eleitoral de 2022, Tarcísio de Freitas contratou a esposa do deputado estadual, a jornalista Vanessa Mauri Campetti, e a ela pagou R$ 75 mil, conforme se lê no relatório das contas de campanha apresentado à Justiça Eleitoral:

(Crédito: TSE)

Assim, Tarcísio de Freitas mostra mais uma de suas características que ele compartilha com Jair Bolsonaro: para ele, a (sua) família sempre está em primeiro lugar.