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Ex-chefe do BRB usou documentos falsos para se recusar a fazer delação premiada; entenda

Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Foto: reprodução

Desde que escapou da prisão na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa passou a viver recolhido em seu apartamento de luxo no bairro Noroeste, em Brasília, onde acabou detido na última quinta-feira (16). Segundo a investigação, ele recebeu propina e integrou a organização criminosa montada por Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.

O caso se agravou ao longo dos últimos meses, enquanto Costa insistia em uma estratégia de defesa técnica para tentar sustentar a legalidade das operações firmadas entre o banco público e a instituição privada. De acordo com informações da Folha, Paulo Henrique chegou a ser aconselhado a fazer uma delação premiada à Polícia Federal antes que seu depoimento perdesse valor diante do avanço das apurações e da análise do material apreendido na segunda fase da operação, em 14 de janeiro.

Mesmo pressionado por familiares, ele recusou o caminho da colaboração. Preferiu apostar na tese de que as compras de carteiras do Master e a tentativa de aquisição de parte do banco de Vorcaro eram, na verdade, um excelente negócio para o BRB. Segundo relatos ouvidos pela Folha, Costa nunca chegou a oferecer delação, alegando inocência e dizendo viver um abalo emocional familiar após um pedido de separação da esposa.

Prédio do BRB em Brasília. Foto: reprodução

Nesse período, ele mergulhou em um esforço descrito como meticuloso e quase obsessivo para reunir documentos, relatórios financeiros, dados de fundos de investimento, contratos e arquivos do BRB levados consigo antes de ser afastado do banco. A principal preocupação, segundo interlocutores, era demonstrar que não sabia que Vorcaro e seus sócios haviam ficado com 23,5% do capital do BRB por meio de fundos em operações de aumento de capital durante sua gestão.

Costa também mostrava mensagens guardadas em seu celular com conversas com dirigentes do Banco Central, que, segundo sua avaliação, comprovariam apoio do regulador à operação de compra de parte do Master pelo banco público. Essas mensagens eram tratadas por ele como a principal arma de sua defesa.

Mesmo fora do comando do BRB, Costa seguiu mantendo contato com antigos auxiliares que permaneceram na instituição e o mantinham informado sobre assuntos internos.

Segundo a apuração, ele chegou a afirmar que a delegada da Polícia Federal responsável pelo caso e seus auxiliares não dominavam o funcionamento do mercado bancário e que estava disposto a colaborar para esclarecer o que considerava distorções técnicas na investigação.

O ex-presidente do BRB chegou inclusive a pedir um novo depoimento à PF. Mas, àquela altura, os investigadores já reuniam indícios fortes de que ele teria falsificado documentos posteriormente para sustentar as decisões de compra de carteiras negociadas com Vorcaro.

O avanço da investigação desmontou a tese construída pelo ex-dirigente. Com base na extração de dados telemáticos dos celulares de Vorcaro e de outros envolvidos, além da documentação apreendida, a PF afirma ter encontrado evidências robustas de participação central de Costa na produção massificada de documentos artificiais, como planilhas, contratos, extratos, procurações e cláusulas de mandato criadas para dar aparência de regularidade a ativos sem lastro.

O Banco Central também já havia identificado documentação falsificada e fabricada. Nas provas reunidas, ainda aparecem ajustes manuais de extratos, documentos antedatados, produção seriada de instrumentos contratuais e procurações atípicas assinadas por agentes do banco em nome de supostos tomadores de crédito.

A Polícia Federal também diz ter identificado que, desde o início das operações, já eram conhecidas inconsistências relevantes nas carteiras oferecidas pelo Master. Mesmo assim, as aquisições teriam sido aceleradas, com flexibilizações sucessivas de procedimentos e pressão por liquidação rápida, “em aparente desprezo aos controles prudenciais” do BRB.