
A leitura dos dados da mais recente pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 15 de abril de 2026, exige um grau de atenção que ultrapassa a interpretação imediata difundida pelos circuitos midiáticos. A assimilação apressada dos números, frequentemente acompanhada pela presença ostensiva do CEO da Quaest em programas que conjugam aparência analítica com dinâmica de espetáculo, tende a cristalizar conclusões frágeis e prematuras, quase convertidas em juízos definitivos. Esse movimento, se não for cuidadosamente examinado, pode induzir, no curto prazo, a equívocos estratégicos de efeitos duradouros, sobretudo em um contexto político marcado pela proximidade do calendário eleitoral.
O próprio levantamento, contudo, oferece um ponto de partida consistente. Os indicadores econômicos apresentam evolução, mas a percepção da população não os acompanha. Estabelece-se, assim, um descompasso persistente entre a realidade estatística e a experiência subjetiva. O diagnóstico é direto: o voto se orienta pela percepção, não pelo indicador; sem a sensação concreta de melhora, os avanços econômicos não se convertem em capital político.
Essa formulação se apoia em evidências expressivas. Metade dos brasileiros afirma que a economia piorou no último ano; mais de dois terços relatam aumento recente no preço dos alimentos; a percepção de perda de poder de compra, somada ao elevado nível de endividamento, compõe um quadro de inquietação cotidiana. A interpretação corrente deriva daí uma conclusão aparentemente lógica: o governo falharia ao comunicar seus resultados, incapaz de transformar dados positivos em sensação de bem-estar.
A imagem que sustenta essa leitura é intuitiva. Enquanto o governo celebra o crescimento do PIB ou a estabilidade da inflação média medida pelo IPCA, o eleitor organiza sua percepção a partir da experiência imediata. Se arroz, feijão e diesel encarecem, a sensação de crise se impõe, ainda que outros itens tenham recuado. A economia vivida parece, assim, desautorizar a economia medida.

No entanto, essa explicação, embora coerente em sua aparência, permanece incompleta. Ela descreve o fenômeno, mas não alcança sua estrutura. Ao atribuir o descompasso a uma deficiência comunicacional, desloca a análise para um plano superficial e, em certa medida, enganoso. A constatação apresentada pela pesquisa não deve ser tomada como explicação suficiente, mas como indício de um processo mais profundo, cuja compreensão exige ultrapassar tanto a superfície dos dados quanto o modo como são apresentados.
A experiência brasileira, observada ao longo do tempo, recomenda cautela diante de interpretações estritamente econômicas. A vida social não se esgota na variação de preços ou na evolução de indicadores agregados. O cotidiano é atravessado por múltiplas dimensões — igreja, saúde, educação, segurança, condições de mobilidade, lazer — que compõem, de maneira indissociável, a percepção de bem-estar. Para uma parcela expressiva da população, a existência se organiza, antes de tudo, em torno da necessidade de sustentar a própria sobrevivência em condições frequentemente adversas.
Nesse horizonte, seria razoável supor que melhorias em áreas não estritamente econômicas pudessem produzir efeitos perceptivos favoráveis à avaliação do governo. No entanto, tais avanços não se converteram, ao menos de forma significativa, em reconhecimento social capaz de influenciar o comportamento eleitoral. Essa ausência não invalida os progressos eventualmente alcançados, mas indica que a formação da percepção coletiva obedece a uma lógica mais complexa, que não se deixa apreender pela simples soma de resultados setoriais. É nesse ponto que se revela um elemento menos visível, porém decisivo, na formação do juízo coletivo.
É aí que reside o “pulo do gato” … de Schroeder.
Há, no intervalo entre realização e reconhecimento, um fator adicional — discreto, mas determinante — que escapa à observação imediata. Trata-se do ambiente em que a percepção é hoje produzida e estabilizada. É justamente aí que a análise precisa avançar, deslocando o foco da superfície dos números para as condições contemporâneas de formação da experiência social.
O que segue não constitui novidade para analistas atentos, ainda que raramente ocupe o centro do debate público.
Durante muito tempo, a leitura da realidade econômica apoiou-se em indicadores relativamente estáveis e em instituições capazes de lhes atribuir sentido. Com todas as limitações, havia alguma correspondência entre os dados produzidos e sua compreensão social.
Esse quadro se altera quando a experiência econômica passa a ser atravessada por interpretações concorrentes. A realidade deixa de ser apenas vivida ou medida e passa a ser continuamente filtrada por um fluxo intenso de informações e opiniões. O que muda, portanto, não é apenas a economia em si, mas a forma como ela se torna inteligível.
No estágio atual, essa inflexão se aprofunda. A percepção econômica torna-se objeto de construção deliberada. Diferentes atores — econômicos, políticos e midiáticos — difundem narrativas que moldam expectativas e influenciam julgamentos. A economia deixa de se restringir aos seus fundamentos materiais e passa a incluir, de modo decisivo, a disputa por sua interpretação.
Esse processo encontra, no ambiente digital, sua forma mais intensa de operação.
As plataformas organizam a circulação da informação segundo critérios de engajamento, não de precisão. Conteúdos que provocam reações emocionais intensas tendem a alcançar maior visibilidade, enquanto informações técnicas, mais complexas, encontram menor difusão. Forma-se, assim, um desequilíbrio: narrativas simples e carregadas de emoção se propagam com rapidez, ao passo que análises baseadas em dados exigem tempo e atenção que raramente se sustentam nesse fluxo contínuo.
A consequência é a formação de um campo informacional profundamente assimétrico. Narrativas simplificadas, muitas vezes condensadas em memes e hashtags, alcançam ampla difusão e passam a operar como molduras interpretativas da realidade. Não se limitam a expressar percepções já existentes; contribuem ativamente para produzi-las e estabilizá-las. Pela repetição contínua, instauram um ambiente em que a sensação de crise persiste, mesmo quando os dados objetivos apontam em direção distinta.

Essa dinâmica encontra respaldo empírico. Estudos de instituições como a FGV-DAPP e a Avaaz indicam que, em períodos de maior intensidade política, uma parcela relevante das interações digitais envolve conteúdos distorcidos ou desinformativos. Mais do que isso, observa-se uma notável sincronia: anúncios de resultados positivos ou de medidas econômicas favoráveis costumam ser seguidos por ondas de contra-informação que reduzem ou neutralizam seu alcance. Levantamentos mostram que as hashtags *#TudoCaro* e *#EconomiaNãoMelhora*, amplamente difundidas desde janeiro de 2025, inundam o debate justamente nos momentos em que boas notícias econômicas são divulgadas.
Diante disso, a divergência entre indicadores e percepção, registrada pela pesquisa, deixa de parecer enigmática. Ela se apresenta como efeito previsível de um sistema em que a circulação da informação obedece a critérios distintos daqueles que orientam a produção dos dados. A chamada psicologia inflacionária é intensificada por esse ambiente, que reforça de modo contínuo a expectativa de deterioração, independentemente da trajetória efetiva dos indicadores.
Esse fenômeno foi descrito com precisão por Byung-Chul Han ao formular o conceito de Infocracia. Trata-se de uma inflexão na forma como o poder se exerce nas sociedades contemporâneas. Não se trata de substituição da coerção direta ou da autoridade institucional, mas de sua reconfiguração em um regime no qual o poder passa a operar predominantemente por meio da informação e de sua circulação.
Nesse contexto, a informação deixa de ser apenas registro do mundo para tornar-se elemento ativo na sua configuração, alterando não só os fluxos informacionais, mas também a produção da verdade e a formação da opinião pública, agora mediadas por dados, algoritmos e dinâmicas digitais.
Em um ambiente saturado, a distinção entre verdade e falsidade perde nitidez, não pela imposição de uma narrativa única, mas pelo excesso, pela fragmentação e pela velocidade. Esse cenário compromete a capacidade de julgamento crítico e enfraquece a construção de um espaço comum compartilhado. A informação, frequentemente imbricada com a desinformação, não apenas interpreta a experiência vivida, mas molda percepções e afetos, muitas vezes desvinculados de bases estáveis. Nesse cenário, informação, desinformação e contra-informação operam como gêmeas xipófagas, indissociáveis em sua circulação, embaralhando continuamente os critérios de verdade e intensificando a instabilidade perceptiva que sustenta a própria lógica da Infocracia.
Nesse regime, o que prevalece não é a consistência do conteúdo, mas sua capacidade de circulação. A viralidade tende a ocupar o lugar da verificação. Um dado econômico não se impõe por sua solidez, mas por sua aptidão para se difundir e mobilizar reações. A percepção coletiva passa, assim, a derivar menos de processos orientados por evidências e mais de dinâmicas de propagação.
A Infocracia não elimina a realidade material, mas transforma o acesso a ela. Entre os fatos e sua compreensão interpõe-se uma mediação digital intensa, estruturada por algoritmos que favorecem certos formatos de conteúdo. Nesse ambiente, o discurso técnico perde alcance relativo, enquanto análises qualificadas encontram maior dificuldade para circular amplamente.
Esse enquadramento ajuda a compreender a repercussão limitada dos chamados “bons números” do governo. A questão não se restringe à forma de comunicação, mas ao ambiente em que ela se insere. Em um sistema orientado pelo engajamento, conteúdos críticos e alarmistas dispõem de vantagem estrutural. A percepção que se consolida não é, necessariamente, a mais fiel aos dados, mas a que melhor se ajusta às lógicas de difusão.
A tese de que o governo enfrenta apenas um problema de comunicação revela-se, portanto, insuficiente e, em certa medida, enganosa. Ela sugere que bastaria ajustar a linguagem ou intensificar a divulgação para aproximar percepção e realidade. No entanto, desconsidera que essa disputa se dá em um terreno profundamente assimétrico, no qual os critérios de visibilidade são definidos por mecanismos que escapam ao controle institucional.
Isso não implica minimizar a importância da comunicação governamental, que pode e deve ser aprimorada. Significa, antes, reconhecer que o desafio a ultrapassa. A formação da percepção econômica tornou-se um processo distribuído, no qual interações cotidianas, redes de confiança e formas diretas de comunicação ganham relevo justamente por não dependerem integralmente da mediação algorítmica.
A leitura dos dados da Quaest, quando retirada a camuflagem projetada pelos analistas da mídia, adquire outra espessura. O descompasso entre indicadores e percepção não decorre prioritariamente de falhas de tradução, mas da existência de um regime informacional que reorganiza continuamente o modo como a realidade é apresentada e interpretada. O eleitor não decide apenas com base no que vive, mas também a partir das narrativas que se lhe apresentam como plausíveis.
Compreender essa transformação é condição para uma análise mais realista do cenário atual. Ela não elimina a materialidade da economia, mas redefine os caminhos pelos quais ela se torna inteligível para a sociedade. Entre o dado e o julgamento político, interpõe-se uma mediação intensa, na qual a informação não apenas circula, mas molda, em larga medida, a percepção coletiva.