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“Urgência”: BRB sustentou crise do Master com aportes desde 2024, mostram mensagens de Vorcaro

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Foto: reprodução

Mensagens inéditas extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro revelam que o Banco Master já dependia de injeções de recursos do BRB desde agosto de 2024 para enfrentar sua crise de liquidez, muitos meses antes de o banco público anunciar, em março de 2025, a oferta para comprar uma fatia da instituição privada. As conversas, obtidas pelo Estadão, reforçam a suspeita de que o socorro financeiro ao Master começou bem antes da operação se tornar pública e se aprofundou à medida que a situação do banco se deteriorava.

O caso voltou ao centro da cena com a prisão do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, nesta quinta-feira (16), na quarta fase da Operação Compliance Zero. Ele é investigado por suspeita de corrupção e por irregularidades na compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras falsas do Banco Master. Daniel Vorcaro está preso desde 4 de março e negocia uma delação premiada.

Segundo a apuração, os aportes do BRB eram feitos por meio da cessão de carteiras de crédito consignado, cédulas de crédito bancário e outros investimentos. Até o fim de 2024, essas carteiras cedidas pelo Master ainda tinham lastro. Depois disso, de acordo com as investigações, o banco de Vorcaro passou a fabricar carteiras falsas para conseguir manter a entrada de recursos do BRB e evitar um colapso financeiro.

Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB. Foto: reprodução

As mensagens mostram o grau de urgência da situação. Em 2 de setembro de 2024, Vorcaro escreveu a Augusto Lima, então sócio do Master: “Tem notícia do BRB? Se não vier vou ter que devolver a grana de sexta e vamos usar compulsório hoje”. O compulsório é a reserva obrigatória mantida no Banco Central para garantir liquidez e segurança ao sistema bancário.

No dia seguinte, diante da demora, o banqueiro voltou a pressionar: “Irmão, preciso saber se eles vão fazer ou não. Já tem 15 dias esse negócio do ccb (Cédula de Crédito Bancário). Se for agarrar e não sair agora preciso saber, depois te explico”. Augusto Lima respondeu: “Falei agora de novo. Estão dizendo que fazem até quinta”.

As conversas indicam que a dependência do BRB cresceu ao longo dos meses. Em 31 de agosto de 2024, Vorcaro já demonstrava preocupação com a possibilidade de um aporte não ser liquidado. “Fala irmão. Tá sabendo que deu merda no BRB? Não liquidou e parece que não vai”, escreveu.

Augusto Lima respondeu que tinha outra informação: “Iria ser liquidado ontem os 400 [milhões]”. Em dezembro, o tamanho da necessidade ficou ainda mais explícito. “Precisamos por uns 600 mm [milhões] no caixa. Pra resolver tudo nosso”, disse Vorcaro. Lima respondeu: “Essa semana entra”.

Em janeiro de 2025, a pressão aumentou. Segundo as mensagens, o BRB passou a filtrar as carteiras recebidas e rejeitou parte delas. “Estamos precisando da carteira com urgência. BRB no saldo não selecionou a carteira”, escreveu Vorcaro. Augusto Lima respondeu: “A carteira é boa. O problema é que ele só quer a premium”.

Foi a partir daí, segundo os investigadores, que o Master passou a usar carteiras da Tirreno, apontada como empresa de fachada criada pelo próprio Vorcaro para fraudar operações de injeção de recursos em triangulação com o BRB.

Antes mesmo do anúncio oficial da compra, o Master já havia repassado R$ 4,6 bilhões ao BRB em 20 contratos firmados entre janeiro e março de 2025. A oferta pública de aquisição girava em torno de R$ 2 bilhões, mas acabou vetada pelo Banco Central em setembro daquele ano.

Segundo a investigação, o banco privado já operava em meio a fraudes bilionárias e usava uma complexa rede de fundos de investimento para desviar recursos aos próprios controladores.