
Bets viciam tanto quanto crack. A diferença é que, enquanto você corre o risco de ser preso ou levar bala ao ir à boca comprar uma pedra, as casas de apostas e cassinos on-line estão a um clique de distância em seu smartphone. Neste momento, seu marido ou seu filho podem estar alimentando o vício, gastando as economias e fazendo dívidas de dentro da segurança da sua casa.
Sempre defendi, neste espaço, que o governo Bolsonaro não deveria ter permitido que as bets se proliferassem feito praga e que o governo Lula deveria ter sido mais duro na regulamentação. Mas, considerando a dificuldade de proibir a jogatina de uma hora para outra, dada a quantidade de parlamentares que as bets têm no bolso no Congresso Nacional, o Brasil precisa urgentemente proibir toda e qualquer propaganda, tal qual aconteceu com o tabaco.
As bets proliferam com anúncios agressivos, patrocínios milionários e a promessa de enriquecimento fácil — pesquisa Datafolha de hoje aponta que 46% dos brasileiros que apostam em bets e cassinos on-line fazem isso para obter renda extra e ajudar a pagar as contas.
Não é difícil entender por que essa tragédia se multiplica como praga em solo brasileiro. O negócio é simples: oferecer ao trabalhador a ilusão de que pode transformar sua vida. O que não se diz é que a esmagadora maioria perde – e perde muito. Tudo isso alimenta um sistema que drena recursos de quem não tem para engordar quem já está nadando em dinheiro e seus aliados políticos.

Enquanto isso, famílias são destruídas por dívidas acumuladas em apostas perdidas, histórias de violência doméstica ligadas ao vício em jogos se multiplicam e jovens são seduzidos por uma lógica perversa que substitui o trabalho pelo golpe de sorte. As bets não são apenas um entretenimento inofensivo – são uma máquina de moer gente, especialmente em um país onde a educação financeira é precária e a desigualdade, abissal.
Há projetos da base do governo no Congresso Nacional para proibir toda e qualquer propaganda de bets e cassinos, incluindo influenciadores e artistas pagos para vender ilusão.
Mas, se é tão importante, por que isso não acontece? Primeiro, pela mesma razão que a CPI das Bets não deu em nada no parlamento: a bancada da jogatina é uma das mais poderosas hoje. Segundo: porque uma parte da economia amarrou seu burro no cascalho das bets e, agora, diz que o país sofrerá um tranco sem ele. E isso inclui imprensa, futebol, shows.
Ora, a economia funcionava antes das bets, vai continuar depois. Mas, como é muito dinheiro, ninguém quer abrir mão. Enquanto isso, o povaréu se estrepa. O jogo pode ser lícito hoje, mas sua expansão descontrolada não.
Não se trata de moralismo, mas de reconhecer um modelo de negócio que lucra justamente com a perda e com o desespero de milhões. Cada propaganda exibida, cada bônus oferecido, cada ganho fácil vendido é, na prática, um convite ao endividamento silencioso.
O Brasil não está diante de uma nova indústria promissora, mas de uma epidemia disfarçada de entretenimento. E epidemias não se enfrentam com complacência, nem com discursos tímidos. Se nada for feito, o país seguirá assistindo a uma engrenagem de ruína. Porque, no fim, a casa sempre vence, e quem paga a conta é o brasileiro comum.