
A empresa de vigilância e análise de dados Palantir Technologies publicou um verdadeiro manifesto político travestido de resumo “breve” em 22 pontos do livro “A República Tecnológica”, escrito por seu diretor-executivo Alexander Karp.
O texto, redigido por Karp e pelo chefe de assuntos corporativos Nicholas Zamiska, tenta apresentar como teoria o que é, na prática, propaganda corporativa: uma defesa aberta da militarização da tecnologia, do endurecimento estatal e de uma visão de mundo que ataca inclusão, pluralismo e valores democráticos.
A Palantir tem sido alvo de críticas crescentes por sua atuação junto ao Immigration and Customs Enforcement (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos), fornecendo ferramentas usadas na política agressiva de deportações durante o governo Donald Trump. Diante disso, parlamentares democratas enviaram uma carta ao órgão e ao Department of Homeland Security exigindo explicações sobre o uso dessas tecnologias de vigilância.
Mas o alcance da empresa vai muito além das fronteiras americanas. A Palantir forneceu a Israel tecnologia de policiamento preditivo automatizado no contexto do genocídio em Gaza, além de infraestrutura essencial para a construção e implementação acelerada de softwares militares. Sua plataforma de inteligência artificial permite integrar dados do campo de batalha em tempo real, viabilizando decisões automatizadas em operações militares — um elemento central na maquinaria tecnológica da guerra.
Nada disso aparece no manifesto. A empresa diz apenas que publicou o texto “porque recebe muitos pedidos”. Em seguida, afirma que o Vale do Silício deve “uma dívida moral” aos Estados Unidos e que “e-mail gratuito não é suficiente” — uma defesa direta da submissão das grandes empresas de tecnologia aos interesses militares e de segurança nacional.
“A decadência de uma cultura ou civilização só será perdoada se ela entregar crescimento econômico e segurança”, diz o texto, naturalizando uma lógica em que direitos e valores são descartáveis diante de desempenho econômico e controle social.
O documento é amplo e agressivo. Ataca uma cultura que “quase zomba do interesse de Elon Musk por grandes narrativas”, ao mesmo tempo em que legitima o uso militar da inteligência artificial.
“A questão não é se armas de inteligência artificial serão construídas, mas quem as construirá e para qual finalidade”, afirma a empresa. “Nossos adversários não vão parar para debates teatrais.”
A mensagem é clara: a corrida armamentista tecnológica deve avançar sem freios éticos.
A Palantir ainda declara que “a era atômica está terminando” e que uma nova era de dissuasão baseada em inteligência artificial está começando — uma normalização explícita da automação da guerra.
O manifesto também revisita a história para defender o rearmamento. Critica o enfraquecimento da Alemanha e do Japão no pós-guerra, dizendo que o desarmamento alemão foi um erro pelo qual a Europa paga caro e que o pacifismo japonês pode ameaçar o equilíbrio de poder na Ásia.
Na reta final, o ataque é direto à ideia de inclusão. A empresa denuncia o que chama de “pluralismo vazio” e afirma que nem todas as culturas são equivalentes — algumas seriam “maravilhosas”, enquanto outras seriam “regressivas e prejudiciais”. É uma rejeição frontal ao princípio básico de igualdade cultural e social.
A Palantir vende software operacional para defesa, inteligência, imigração e polícia. Seu manifesto não é abstrato — é a expressão pública de uma ideologia que sustenta seu modelo de negócios.
Uma ideologia que combina vigilância em massa, repressão migratória, militarização da inteligência artificial e participação direta em conflitos como o genocídio em Gaza.
Because we get asked a lot.
The Technological Republic, in brief.
1. Silicon Valley owes a moral debt to the country that made its rise possible. The engineering elite of Silicon Valley has an affirmative obligation to participate in the defense of the nation.
2. We must rebel…
— Palantir (@PalantirTech) April 18, 2026