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Sakamoto: Horror que Trump promove é racional demais para ser tratado como loucura

Trump retratado como Jesus Cristo em imagem gerada por IA. Foto: Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

Enquanto Donald Trump coloca em risco o futuro do planeta e a estabilidade da economia norte-americana com uma guerra mais inútil do que as demais, cresce o número de cidadãos dos EUA que se perguntam como frear o seu líder antes das eleições legislativas de meio de mandato. Nelas, há grande chance de os republicanos perderem o controle de ambas as casas, o que limitaria, literalmente, seu poder de fogo.

Após ele ter colocado um genocídio persa na mesa quando ameaçou “a morte de toda uma civilização”, muitos passaram a defender que ele fosse interditado com base na 25ª emenda da Constituição dos EUA, que permite a destituição do presidente após ser considerado por seu gabinete como inapto para exercer o seu mandato. As reportagens que tentavam mostrar sinais de demência no comportamento de Trump, antes já numerosas, tornaram-se comuns.

Compreende-se a tentativa pelo desespero de quem vê o mundo indo para o buraco. Mas há um risco de tentar vender como insanidade aquilo que é muito mais um cálculo político que faz parte de um plano de longo prazo para redesenhar o papel das instituições e as dinâmicas sociais nos EUA e no mundo para um modelo autoritário e iliberal. Claro que há uma dose de loucura no pacote Trump, que inclui um comportamento ególatra, arrogante e voluntarista. Mas há método, e ele vai ajudando a redesenhar o mundo.

Seria fácil apontar que a maldade ou a insanidade de alguém são responsáveis por seu comportamento, mas isso seria ignorar a estrutura por trás.

Em “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”, a filósofa Hannah Arendt conta a história da captura do carrasco Eichmann, na Argentina, por agentes israelenses, e seu consequente julgamento. Ela, judia e alemã, ficou presa em um campo de concentração antes de fugir para os EUA.

A filósofa Hannah Arendt e sua obra “Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal”. Foto: Reprodução

Ao contrário da descrição de um demônio que todos esperavam em seus relatos, originalmente produzidos para a revista New Yorker, o que ela viu foi um funcionário público medíocre e carreirista, que não refletia sobre suas ações e atividades e que repetia clichês. A autora não quis, com o texto, que acabou lhe rendendo ameaças na época, suavizar os resultados da ação de Eichmann, mas entendê-la em um contexto maior. Isso fez com que fosse atacada por quem queria a confirmação da encarnação da maldade ou da loucura.

Não comparo aqui a trajetória das duas figuras, não estou incorrendo na simplicidade do reductio ad hitlerum. Apenas resgato o alerta de ignorar a estrutura. Pois é fácil centrar fogo nas ações de uma única pessoa, por mais poder que ela tenha, ignorando que essas figuras não estão sozinhas, mas representam algo maior.

Retirar o personagem do palco pode ou não fazer com que a peça mude de rumo. Se ele for retirado como resultado de uma mudança real na correlação de forças dentro dos EUA, o desfecho pode ser outro. Caso contrário, ainda mais com um vice fraco como JD Vance, o roteiro pode continuar a ser cumprido. A História mostra que líderes não surgem no vácuo. Eles são produto, combustível e também consequência de um ambiente que os legitima.

Hannah Arendt não escreveu para inocentar ninguém. Escreveu para lembrar que o horror não precisa de monstros mitológicos, basta gente comum operando engrenagens que nunca deveriam existir. E essas engrenagens continuam, muitas vezes bem lubrificadas, após o passamento de líderes, amparadas por uma rede de interesses, medos e oportunismos.

A pergunta, então, não é apenas como parar um potencial genocida, mas como interromper o sistema que o colocou lá e o empodera. Sem encarar isso, troca-se o nome, mas o destino permanece manifesto. E, no fim das contas, o mundo continua sendo redesenhado, com ou sem o protagonista da vez.