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Depoimento liga cúpula da PM de SP a vazamentos que beneficiaram o PCC; entenda

O ex-comandante-geral da Polícia Militar de SP, Coronel José Augusto Coutinho. Foto: Divulgação

Um depoimento sigiloso prestado pelo promotor Lincoln Gakiya à Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo detalha a atuação de um núcleo de vazamentos dentro da Rota em benefício do Primeiro Comando da Capital. Com informações do Globo.

Segundo o integrante do Gaeco, as irregularidades foram comunicadas ao então comandante da corporação, coronel José Augusto Coutinho, que à época chefiava a tropa de elite.

De acordo com o depoimento, ele informou pessoalmente Coutinho sobre um vazamento que teria facilitado a fuga de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, apontado como líder do PCC em liberdade naquele período.

O promotor também relatou a existência de uma gravação ilegal de uma reunião com investigadores, que teria sido desviada por policiais e posteriormente vendida ao criminoso. O encontro entre Gakiya e Coutinho ocorreu em 30 de novembro de 2021, na sede do Ministério Público de São Paulo.

Na ocasião, o promotor apresentou áudios envolvendo Tuta e uma testemunha protegida que indicavam a participação de policiais da Rota. Ainda segundo o relato, o então comandante não adotou medidas e atribuiu o vazamento a integrantes da Secretaria da Administração Penitenciária.

O documento, datado de março deste ano, aponta que o ex-comandante pode responder por prevaricação e condescendência criminosa, conforme o Código Penal Militar. As acusações envolvem omissão diante de possíveis irregularidades cometidas por subordinados.

O promotor Lincoln Gakiya. Foto: Divulgação

As revelações contribuíram para a mudança no comando da Polícia Militar, oficializada pelo governador Tarcísio de Freitas em 16 de abril. Coutinho deixou o cargo e foi substituído pela coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a assumir o posto.

Ao comentar a troca, o governador afirmou: “Não tem nada a ver. O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns. Eu acho que o coronel cumpriu muito bem o papel dele, a missão e a gente escolheu o coronel Glauce, que tem uma trajetória muito importante na Polícia Militar (…). Ele pediu [para sair], mas não por causa disso. É absolutamente inconsistente. Ele não tem nada a ver com esse negócio”.

A defesa do ex-comandante, representada pelo escritório Fernando José da Costa Advogados, declarou que ele não teve acesso aos autos. “Não obstante, reitera a absoluta idoneidade de sua conduta, destacando que se trata de oficial da Polícia Militar com 34 anos de carreira, sem jamais ter sido alvo de qualquer processo ou investigação por irregularidades ao longo de sua trajetória profissional”.

Segundo Gakiya, o esquema incluía a venda de informações estratégicas e até segurança privada para integrantes do PCC. Ele relatou que policiais teriam recebido valores para repassar dados de operações e proteger lideranças, além de manter comunicação direta com membros da facção.

O promotor também afirmou que o grupo teria negociado por cerca de R$ 5 milhões uma gravação de reunião realizada em 2021 na sede da Rota. O material continha informações sobre o funcionamento interno da organização criminosa e teria sido utilizado para beneficiar seus integrantes.

As investigações apontam ainda que o núcleo de vazamentos teria contribuído para ações como a fuga de suspeitos durante operações policiais e o fortalecimento da atuação da facção.