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Sakamoto: o que o fim do 6×1 tem a ver com as 840 mil mortes por saúde mental no trabalho?

Manifestantes protestam pelo fim da escala 6×1 na Avenida Paulista. Imagem: Roberto Sungi/Ato Press/Estadão Conteúdo

Por Leonardo Sakamoto no Uol

Tem gente que ainda trata a discussão sobre o fim da 6×1 como se fosse mimimi de trabalhador preguiçoso, como se pedir um dia a mais de descanso fosse o equivalente a querer a escala gostosa de alguns parlamentares. Mas talvez essas pessoas devessem dar uma olhada menos ideológica e mais honesta nos dados.

Segundo relatório divulgado esta semana pela Organização Internacional do Trabalho, mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos no mundo por consequências de problemas psicossociais causadas pelo trabalho, como longas jornadas, assédio no local de serviço e insegurança no emprego. Eles acabam causando transtornos mentais que levam a burnout, AVCs, doenças cardiovasculares e até suicídio.

Sim, quando dizemos que tem gente morrendo de tanto trabalhar não é metáfora ou figura de linguagem.

No Brasil, isso não é novidade para quem acompanha notícias. Ficaram famosos os casos de cortadores que morriam após derrubar, dia após dia, toneladas de cana. No Japão, há até uma palavra pra isso: karoshi. Significa “morte por excesso de trabalho” e surgiu para descrever casos de óbitos de infarto, AVC ou colapso físico e mental após falta de descanso e estresse extremo. Nesses casos, o trabalho deixa de ser meio de vida e passa a colocar a própria vida em risco.

De acordo com as Nações Unidas, entre as principais causas dos 840 mil mortos por ano estão jornadas longas, extenuantes, contínuas. Ou seja, a escala 6×1 não é só um arranjo trabalhista antiquado. É parte de um sistema que adoece.

Manifestação pelo fim da escala 6×1. Foto: Miguel Schincariol/AFP

No Brasil, os sinais dessa doença já viraram epidemia. Dados da Previdência mostram que os afastamentos por burnout saltaram de 823 casos em 2021 para 4.880 em 2024. Um aumento de quase seis vezes. E isso com subnotificação, pois nem todo mundo que está quebrado consegue parar.

Mas ainda tem quem diga: “sempre foi assim”. Mesmo que tivesse sido, isso não justifica manter um modelo que produz sofrimento em escala industrial. O que a OIT chama de “ambiente psicossocial de trabalho” inclui a forma como ele é organizado, a carga, o ritmo e o tempo disponível para descanso. Não estamos falando de fragilidade individual, mas de uma estrutura que glorifica o excesso. E que não nasce por escolha democrática, mas por imposição legal e simbólica.

São as famosas as narrativas econômicas e religiosas que transformam o “trabalhar até morrer” em um sacrifício para provar o seu próprio valor para os outros, para Deus e para si mesmo. A questão é que, nesses casos, não se trabalha para o seu próprio negócio, mas para a bonança dos negócios de terceiros.

A escala 6×1 é uma engrenagem dessa estrutura, pressionando o trabalhador até o limite, reduzindo sua capacidade de recuperação e aumentando o risco de doenças físicas e mentais. E depois, ironicamente, cobrando produtividade. Não se questiona a necessidade de manutenção de máquinas para evitar quebras, mas, para muita gente, pessoas não têm o mesmo direito.

A OIT estima que os impactos desses problemas representam uma perda de 1,37% do PIB global por ano. Isso sem contar o custo humano, que não entra em planilha.

Reduzir a jornada não é só uma pauta trabalhista, como venho repisando aqui feito um papagaio com cãibra. É uma política de saúde pública, atacando a causa para evitar remediar os sintomas com comprimidos, afastamentos e discursos motivacionais vazios.

Claro, acabar com a 6×1 não resolve tudo, pois há outras questões estruturais: precarização, informalidade, falta de proteção, assédio (segundo a OIT, 18% dos trabalhadores experimentaram violência psicológica). Mas é um passo necessário. Um daqueles que incomodam porque mexem com a lógica de extrair o máximo até o limite do colapso.

A resistência a essa mudança não é técnica, mas ideológica, vinda de uma política e uma economia que se ampara na construção moral de que o sofrimento dignifica. Como se trabalhar até adoecer fosse prova de caráter. Quando é apenas a evidência de que o sistema falhou.