
Relatos de brasileiros sobre experiências de quase morte (EQM) têm intrigado cientistas e levantado dúvidas sobre o que ocorre além da vida. Pessoas de diferentes perfis compartilham sensações semelhantes ao ficarem entre a vida e a morte. A pedagoga Josivânia Freitas, moradora da Região Metropolitana do Recife (PE), contou sobre suas três experiências de quase morte, que ocorreram aos 12, 17 e 20 anos.
Nas duas primeiras, ela desmaiou devido à violência doméstica e descreveu sentir como se tivesse saído de seu corpo, observando-se de fora. “Eu me vi fora do corpo, como se tivesse saído de mim. É uma espécie de foco de luz”, contou ao programa “Fantástico”, da TV Globo.
A terceira experiência de Josivânia foi a mais marcante. Durante um parto de alto risco, ela ouviu médicos falando em atestado de óbito enquanto observava a cena de fora do corpo. “Eu pensava: ‘não, mas eu estou viva, o senhor não está me vendo?’”, relatou.
Ela afirmou que foi tranquilizada por uma voz que lhe disse: “Não se preocupe, você vai retornar”. Ao acordar da anestesia, Josivânia relatou detalhes sobre a conversa dos médicos, o que surpreendeu a equipe, pois ela estava inconsciente na hora. “Eu falei com você, você não me ouviu?”, perguntou ao anestesista.

Outros brasileiros também relataram experiências semelhantes. O ex-jogador Oscar, por exemplo, contou que teve sensações parecidas após passar mal durante exames de rotina. “Eu só lembro de ter aqueles sonhos que as pessoas falam que você sai um pouquinho do corpo”, disse. Ele também recordou de ouvir a voz de seu filho pedindo: “‘Volta pai, volta!'”.
Clemente Nascimento, músico da banda Inocentes, passou por uma experiência de quase morte após uma grave dissecção da aorta em 2025. Durante sete horas de cirurgia, ele revisitou momentos marcantes da vida, incluindo amigos que já haviam falecido. “Eu tive momentos de viagem completa, de você fazer aquele famoso filme da vida”, contou.
Veja os relatos:
O professor Ilson Silveira relatou sua experiência após um acidente de carro em Lisboa, em 2012. Ele descreveu estar “absolutamente escuro”, mas notou um ponto de luz à frente. “Uma voz tranquila afirmou que ainda não era minha hora”, disse.
Esses relatos refletem um fenômeno comum nas EQMs: a sensação de paz e a impressão de estar em outro plano, frequentemente associada à presença de luz ou figuras tranquilizadoras. A neurocientista Charlotte Martial acredita que essas experiências podem ser explicadas por reações químicas no cérebro. Ela argumenta que em crises fisiológicas graves, como a parada cardíaca, o cérebro libera neurotransmissores que provocam sensações intensas e visões, como a impressão de estar fora do corpo.
Outros cientistas, como o neurologista Daniel Kondziella, apoiam essa teoria, sugerindo que a tempestade de neurotransmissores seria responsável pelas percepções que muitas pessoas relatam.
Alguns pesquisadores discordam dessa explicação. Etzel Cardeña e Marieta Pehlivanova defendem que a ciência ainda não consegue explicar completamente os relatos de pessoas que mencionam detalhes sobre o que aconteceu enquanto estavam inconscientes, especialmente quando essas informações podem ser confirmadas por terceiros. Para esses estudiosos, a consciência humana pode envolver processos ainda não compreendidos.
Independentemente da explicação científica, as pessoas que relataram essas experiências afirmam que saíram transformadas. Josivânia, por exemplo, contou que por muitos anos evitou falar sobre o que vivenciou, mas agora se sente em paz para compartilhar sua história. “Com a idade que eu tenho agora, já não me preocupo mais com o que acham ou pensam. Eu só sei o que eu passei, sei o que vivi. E está tudo certo”, afirmou.